Apagões têm causado transtornos, e a população começa a se revoltar com maior firmeza contra o regime comunista
Eugenio Goussinsky

Falta de luz tirou o descanso da população | Foto: Reprodução/YouTube
O portal 14ymedio, da oposicionista cubana Yoani Sánchez, publicou, nesta segunda-feira, 25, uma reportagem que retrata o dia a dia em Cuba nesses tempos de apagões, falta de recursos e ameaças de intervenção dos Estados Unidos. As dificuldades acumuladas nestas quase sete décadas, desde a revolução comunista de Fidel Castro, parecem, segundo a publicação, estar chegando ao auge. A população começa a se revoltar com maior firmeza.
O impacto dos apagões prolongados já aparece no rosto dos moradores de Havana, relata o portal. Em Regla, um homem descreveu o esgotamento coletivo com a frase: “Havana amanhece com olheiras”. Segundo ele, a aparência abatida tem relação com as intermináveis noites sem eletricidade, que transformaram o descanso em algo raro para boa parte da população cubana. O portal não divulga o nome dos entrevistados, em função do risco de repressão governamental que eles poderiam correr.
O cenário se repete em diversos bairros da capital. Depois de mais de 27 horas consecutivas sem energia, moradores saíram às ruas batendo panelas em protesto contra a situação. O som metálico ressoou por várias quadras como expressão de revolta diante do calor sufocante, da invasão de mosquitos, da comida que estraga nas geladeiras e da dificuldade até para fazer crianças dormirem.
“As panelas soavam em todos os quarteirões”, relatou o morador. Segundo ele e outros residentes da região, o bairro havia ultrapassado mais de um dia sem fornecimento regular de eletricidade. Quando chegava o horário previsto para o retorno da luz dentro do sistema de rodízio adotado pelo governo, surgia uma nova falha técnica. Em seguida começava o ciclo de interrupções: alguns minutos de energia, novo apagão, outra tentativa de restabelecimento e mais espera.
“No fim, nos davam apenas 15 minutos de eletricidade”, contou. A sequência se repetiu diversas vezes nos últimos dias, até que a irritação coletiva explodiu em forma de panelaço. Outro morador afirmou que os informes divulgados pela União Elétrica cubana nas redes sociais não refletem a situação real enfrentada pela população. Segundo ele, a crise deixou de ser percebida apenas em termos de megawatts e déficit energético. Hoje ela é sentida nas horas sem dormir, no desgaste emocional e no cansaço permanente.
“Dormir em Cuba virou privilégio”, resumiu uma mulher da região. Conseguir descansar passou a depender de uma série de condições que poucos conseguem reunir ao mesmo tempo: possuir ventilador recarregável, conseguir carregá-lo antes dos cortes, ter bateria suficiente, dispor de combustível para um gerador ou morar em uma casa minimamente ventilada. Ainda assim, o calor e os mosquitos tornam a madrugada quase insuportável.
Uma moradora de Havana relatou que a energia foi interrompida às 16h30 e só voltou às 7h30 da manhã seguinte. “A noite inteira sem eletricidade”, disse. Para tentar prolongar a duração da bateria do ventilador portátil, ela reduziu o aparelho à potência mínima. Mesmo assim, o calor aumentava dentro do apartamento. Quando decidiu abrir as janelas, os mosquitos tomaram conta do quarto. Ao aumentar novamente a velocidade do ventilador, outro problema apareceu: o ruído constante do aparelho a impedia de dormir. Pouco depois, a carga terminou completamente.
“Então você liga o gerador elétrico e coloca o ventilador para carregar”, contou. O processo improvisado precisou ser repetido durante toda a madrugada. Ao amanhecer, o resultado eram apenas algumas horas de sono interrompido. “Assim ninguém consegue suportar isso”, afirmou. Mesmo reconhecendo o próprio desgaste, ela diz viver situação melhor do que a maioria da população. “Tenho ventilador e gerador. A maioria das pessoas não tem nada.”
Uma professora descreveu um cenário ainda mais difícil dentro de muitas casas cubanas. Segundo ela, adultos praticamente deixaram de dormir e passam boa parte da madrugada abanando crianças com pedaços de papelão para aliviar o calor e afastar mosquitos. Quando a eletricidade retorna, explicou, ninguém comemora. O clima é de correria. “Quando a energia chega, seja qual for a hora, começa uma corrida desesperada.” As famílias tentam cozinhar rapidamente, carregar celulares, ligar eletrodomésticos, lavar roupas e resolver o máximo possível antes que um novo apagão comece.
Cuba: horas sem energia
A professora contou ter enfrentado cerca de 15 horas sem energia em uma residência constantemente aquecida pelo sol. Afirmou que acabou dormindo apenas por exaustão física. “Acabei dormindo de tanto cansaço.” A crise energética também mudou o cotidiano intelectual dos cubanos. Pessoas que antes ignoravam completamente o funcionamento do sistema elétrico passaram a acompanhar obsessivamente informações técnicas sobre circuitos, sincronizações, déficit de geração e megawatts.
“Já sei quase tanto quanto Lázaro Guerra”, ironizou a professora, referindo-se ao porta-voz oficial do setor energético cubano. Segundo ela, acordar diversas vezes durante a madrugada para verificar mensagens no Telegram se tornou rotina. A esperança é encontrar o aviso de que o fornecimento começará a ser restabelecido. A mulher afirmou sentir que a população passou a implorar por um serviço básico que continua sendo pago todos os meses. “Estou mendigando um serviço que é um direito.”
Além do desgaste emocional, os apagões também afetam a alimentação e a saúde física. Um dos entrevistados contou ao portal ter sentido dores de estômago depois de pedir comida por delivery. Ele suspeita que os alimentos tenham sido comprometidos pela falta de refrigeração contínua. “Vai saber quantas vezes essa comida congelou e descongelou.”
Segundo ele, o cansaço chega a alterar completamente o comportamento depois de muitas horas sem energia. “Depois de 12 horas seguidas sem luz, meu humor muda”, disse. Ler, sair de casa ou assistir a qualquer coisa deixam de despertar interesse. “O corpo entra em estado de sobrevivência”.
A companheira dele questionou os efeitos psicológicos provocados pela crise energética. “Alguém pensa na saúde mental dos cubanos?” Segundo ela, as olheiras já se tornaram parte da aparência cotidiana da população. Para a mulher, porém, o pior momento não é o calor, os mosquitos nem a ansiedade. “O pior é abrir os olhos e ver tudo escuro.” A sensação, disse, é de ser engolida pela noite, pela impotência e pelo abandono de um governo que, segundo ela, deixou de priorizar a população.
Quando o dia amanhece, não existe sensação de descanso. Começa apenas mais uma jornada de filas, trabalho, caminhadas e busca por alimentos em meio ao cansaço acumulado. Ao anoitecer, o ciclo provavelmente voltará a se repetir. Isso desanima. “Em Cuba não se consegue dormir, muito menos sonhar”, concluiu o morador de Regla.

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