Ex-banqueiro afirma que negociou repasses ao Instituto Lula e a documentário em troca de acesso a fundos de pensão estatais
Isabela Jordão
Segundo áudio e documentos obtidos obtidos pela revista Veja, a negociação de Vorcaro envolveu o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e integrantes do governo Lula | Foto: Montagem Revista Oeste//Reprodução/Paulo Pinto/Agencia Brasil
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou ter negociado pagamentos de cerca de R$ 30 milhões para financiar um documentário sobre Luiz Inácio Lula da Silva no exterior, além de repasses ao Instituto Lula, como parte de um suposto esquema para obter acesso a fundos de pensão de estatais.
Segundo relatos atribuídos a Vorcaro em áudio e documentos obtidos pela revista Veja, a negociação envolveu o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e integrantes do governo Lula, entre eles o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que à época chefiava a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência.
De acordo com o banqueiro, os pagamentos seriam contrapartidas para viabilizar investimentos de fundos de previdência de servidores públicos em produtos financeiros do Master. Vorcaro afirma que o acordo previa ainda uma comissão de 10% sobre os recursos captados com entidades.
Transcrição do áudio de Vorcaro sobre Paulo Okamotto e o Instituto Lula e o documento no qual cita pagamento de R$ 30 milhões | Foto: Reprodução/Veja
As acusações, apresentadas à Procuradoria-Geral da República (PGR), não foram levadas adiante naquele momento, sob a justificativa de insuficiência de provas, segundo a reportagem.
Em resposta, Lula declarou que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receberem recursos de Vorcaro em seu nome”. Padilha também negou relação com o banqueiro, assim como Olavo Noleto, então secretário-executivo da pasta comandada pelo ministro.
As alegações fazem parte de uma nova tentativa de colaboração premiada de Vorcaro, cuja credibilidade foi questionada depois do fracasso de uma primeira proposta.
Foto: Reprodução/Veja
Documentário e Instituto Lula no centro das acusações
Em um dos trechos apresentados pela Veja, Vorcaro afirma que seu então sócio e presidente-executivo do Master, Augusto Lima, articulou a aproximação com Vaccari por meio de lideranças petistas da Bahia. O ex-líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner, teria ajudado a intermediar o contato, segundo o relato.
O banqueiro diz que a negociação previa um pagamento em dinheiro vivo de aproximadamente R$ 30 milhões para cobrir despesas de produção de um documentário sobre Lula gravado no exterior, além de outros valores destinados diretamente ao instituto que leva o nome do presidente e é administrado por Paulo Okamotto.
“Deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente R$ 30 milhões para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula”, afirmou Vorcaro no material descrito pela revista.
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O filme mencionado seria Lula, documentário do cineasta Oliver Stone, que reúne depoimentos de amigos e aliados do presidente. Segundo Vorcaro, Vaccari também teria exigido uma comissão de 10% sobre os valores que o Master conseguisse captar com fundos de previdência ligados à Caixa Econômica Federal, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios.
Em um áudio, o ex-banqueiro relaciona os pagamentos ao documentário e ao instituto. “O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara [Vaccari] pede para colocar dinheiro no filme do Lula”, diz.
Questionado pelo interlocutor sobre a semelhança com o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, Vorcaro afirma que os valores destinados à produção sobre Lula teriam sido até maiores.
“O filme do Lula eu coloquei acho que até mais [que o filme de Bolsonaro]. Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”, declarou.
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Vorcaro afirmou ter informado às autoridades que dispunha de mensagens, registros de retiradas de dinheiro e informações sobre as rotas utilizadas pelos responsáveis pelas entregas.
Padilha e auxiliares teriam atuado para liberar investimentos
O relato de Vorcaro também atribui participação a Padilha, a Noleto e a operadores ligados ao grupo. Segundo o banqueiro, no fim de 2023 e no início de 2024, o Master montou uma equipe para buscar recursos de fundos de pensão federais. Nesse processo, teria recebido propostas de pagamento de propina em troca de facilidades para acessar as entidades.
Um dos intermediários, identificado como Júlio, teria apresentado Vorcaro a Noleto, então secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais. Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro revelariam que a aproximação ocorreu com ajuda de Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e parceiro de Vorcaro em outros negócios.
“Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você”, escreveu Mares Guia ao banqueiro, conforme os registros citados pela revista.
Foto: Reprodução/Veja
Vorcaro afirma que se reuniu pessoalmente com Padilha e participou de pelo menos dois jantares com o ministro. Em um desses encontros, segundo o relato, Padilha teria dito que as tratativas conduzidas com Noleto seriam equivalentes a negociações com o próprio ministro.
O banqueiro também afirma que, em uma conversa reservada com Júlio, Noleto e um primo deste, ouviu que o acesso à Previ, à Petros e ao Postalis dependeria do pagamento de comissões de 10% sobre os recursos captados.
As mensagens atribuídas aos envolvidos mostram cobranças sobre o andamento das negociações. Em 8 de abril de 2024, Vorcaro perguntou sobre contatos com a Petros e o Postalis. Júlio respondeu que já havia encaminhado as demandas e que trabalhava para avançar nas tratativas com os fundos.
A liberação formal para o Master operar com as entidades ocorreu em 29 de abril de 2024, quando o banco foi incluído na chamada “lista exaustiva”, documento que reúne instituições autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais. “Entramos na lista exaustiva. Resolvido”, escreveu Augusto Lima a Vorcaro. “Você é f*da”, respondeu o banqueiro.
Foto: Reprodução/Veja
Na mesma data, segundo as mensagens reproduzidas pela revista, Júlio pediu R$ 500 mil a Vorcaro. O banqueiro teria feito o pagamento e cobrado resultados nas captações. “Quero ver agora você virar uma boleta de verdade”, escreveu, usando um termo do mercado financeiro para se referir à concretização de um investimento.
Operações não avançaram como o esperado
O avanço das negociações foi interrompido em julho de 2024, quando veio a público uma tentativa do Master de vender R$ 500 milhões em letras financeiras à Caixa Econômica Federal. Segundo reportagem do jornal O Globo publicada em 12 de julho daquele ano, dois gerentes da Caixa haviam sido afastados depois de emitir pareceres contrários à operação.
Vorcaro afirma que a repercussão levou dirigentes de fundos de pensão e integrantes do grupo ligado a Padilha a suspenderem as decisões de investimento. Apesar disso, o banqueiro diz que continuou buscando recursos em fundos municipais nos quais Júlio teria influência. Segundo seu relato, os negócios teriam gerado ao menos R$ 6 milhões em pagamentos ao ministro e a seus operadores.
As mensagens também revelariam que, em outubro de 2024, os interlocutores tentaram organizar uma reunião entre Vorcaro e Lula. Júlio escreveu ao banqueiro que o presidente o receberia e que Noleto entraria em contato para acertar a agenda.
Foto: Reprodução/Veja
A reunião confirmada no Palácio do Planalto foi realizada em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial, por articulação do advogado Walfrido Warde com o então chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola. O assunto seria a situação do Banco Master com o Banco Central.
Em junho de 2025, frustrado com a falta de resultados, Vorcaro cobrou o intermediário. “Estamos já há mais de 12 meses tentando uma boleta [investimento]. Não dá pra mobilizar a equipe para novos temas sem concluir nenhum”, escreveu.
Em agosto daquele ano, o banqueiro deu um ultimato ao operador e ameaçou encerrar o trabalho caso não houvesse avanços. “Cara, essa é a última chance. Se não entrar nada até final da semana que vem, eu gostaria que você encerrasse o trabalho. Já consumiu muito tempo, dinheiro e recursos nossos”, afirmou.
PGR descartou relato, e Vorcaro prepara nova delação
Segundo a Veja, Vorcaro apresentou os relatos à PGR em junho de 2026, quando uma segunda proposta de colaboração premiada foi descartada. A Procuradoria teria entendido que não havia provas suficientes para dar prosseguimento às acusações relacionadas aos pagamentos em dinheiro vivo.

Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, ex-diretor da Fundação Perseu Abramo e um dos fundadores do PT | Foto: Reprodução/PT
A defesa do banqueiro sustentou que havia outros elementos que poderiam embasar a apuração, como conversas de WhatsApp, registros de entrada no Planalto, e-mails, atas de reuniões, comprovantes de pagamentos e informações sobre voos utilizados pelos envolvidos. Vorcaro também teria relatado supostos pagamentos a outras autoridades, incluindo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e integrantes do Judiciário.
Procurado pela revista, Lula negou ter solicitado ou recebido vantagens financeiras de Vorcaro. Padilha e Noleto também negaram envolvimento com o banqueiro. Os demais citados não se manifestaram até o fechamento da reportagem.
Vorcaro está preso desde março de 2026, em Brasília, no contexto das investigações sobre suspeitas de fraudes bilionárias que envolvem o Banco Master. Depois de uma primeira tentativa de delação marcada pela omissão de informações, o banqueiro apresentou uma segunda proposta, que não prosperou, e trabalha agora em uma terceira tentativa de colaboração com as autoridades.
As acusações relatadas por Vorcaro ainda precisam ser verificadas pelos investigadores. A eventual existência de mensagens e registros mencionados pelo banqueiro poderá ser relevante para esclarecer se os pagamentos ocorreram, quem teria participado das negociações e se houve contrapartidas que envolveram recursos de fundos de previdência públicos.