Cientista político Emerson Saraiva afirmou a Oeste que nunca houve tanta interferência do Judiciário nos meses que antecederam a eleição, principalmente em setembro
Eugenio Goussinsky
Alexandre de Moraes e André Mendonça protagonizaram uma das maiores crises na história do STF | Foto: Antônio Augusto/STF
Os acontecimentos que antecederam estas eleições no Brasil poderiam, no futuro, inspirar um livro intitulado Setembro, semelhante a Agosto, de Rubem Fonseca, romance que recria a sequência de fatos anteriores à morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. A diferença é que agora não se trata da morte de alguém, mas da possibilidade de esgotamento de um modelo político iniciado nos anos 2000, encabeçado pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A intensidade dos acontecimentos, porém, é inédita na história do país, com a inclusão de temas como religião e um escândalo bancário que envolve suspeitas de participação direta de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Essas controvérsias também respingaram nos candidatos, conforme afirmou a Oeste o cientista político Emerson Saraiva, especialista em marketing eleitoral.
“Sem dúvidas esta campanha ficará marcada por essa sequência frenética de fatos e polêmicas vindos das mais diversas fontes e que envolvem atores que antes não apenas não estavam envolvidos diretamente no debate como eram os responsáveis por ordenar o processo, como é o caso do Judiciário.”
Antes de surgir, na quinta-feira, 24, a informação falsa de que haveria, entre aliados do candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, revelações de supostas conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, já ditavam o ritmo da campanha.
Um relatório da Polícia Federal (PF) divulgado em 1º de setembro revelou o envio de dezenas de mensagens por Vorcaro a um número atribuído a Moraes nos dias que antecederam a primeira prisão do ex-banqueiro, em novembro de 2025.
Desde então, depois da interrupção, por um pedido de vista do ministro Flávio Dino, da sessão extraordinária que definiria se Moraes seria ou não julgado por seus pares, o ministro praticamente saiu de cena.
As mensagens foram expostas depois que o ministro André Mendonça, então relator do processo, retirou o sigilo de investigações e diálogos extraídos do celular de Vorcaro. Essas conversas continham menções a ministros da Corte, entre eles Moraes, e políticos. A situação gerou uma das maiores crises entre ministros do STF.
Dias que antecedem as eleições de 2026
Nas mensagens de Vorcaro, havia consultas sobre fuga e operações. Também foram levantados indícios de contratos milionários que envolvem o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, um deles de R$ 131 milhões, além de repasses e negociações de cotas de aeronaves, entre elas um jatinho e um helicóptero.
Isso sem contar a polêmica que envolve mensagens de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio sempre afirmou que o financiamento recebido para a produção do filme foi privado e negou ter recebido qualquer dinheiro. Lula se encontrou com Vorcaro no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024, em uma visita que não estava previamente agendada.
Ainda em relação ao Master, o senador Jaques Wagner (PT-BA) passou a ser investigado pela PF por suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro que envolveu a cúpula do banco. Foram revelados indícios de vantagens indevidas ligadas a ex-gestores da instituição, como Vorcaro e Augusto Ferreira Lima. A investigação levou o parlamentar a deixar a liderança do governo no Senado em junho. Wagner negou irregularidades.
Nesse contexto, Emerson acredita que os dois últimos dias que antecedem o pleito deverão ser muito agitados. “O final da campanha será completamente caótico, e a tendência é que surjam situações que nunca se viu em campanhas passadas”, avaliou o cientista político.
“Isso pode causar grandes estragos e gerar movimentações importantes, mas a maior possibilidade mesmo é que nesse cenário de entropia as forças se anulem e o eleitor não leve em consideração esses conteúdos, até pela impossibilidade de validar o que é verdade e o que não é.”