Diálogos revelam tentativas de reunião com o presidente em 2025; Banco Central vetou o negócio com o BRB em setembro
Letícia Alves
Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025 | Foto: Divulgação/Banco Master
Mensagens do celular de Daniel Vorcaro revelam que o ex-banqueiro e o advogado Walfrido Warde tentaram articular reuniões com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2025. Eles buscavam apoio para que o Banco Central (BC) aprovasse a venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB).
As tentativas ocorreram depois de um encontro entre Lula e Vorcaro no Planalto, em dezembro de 2024. O BC, porém, vetou a venda em setembro de 2025 e, dois meses depois, decretou a liquidação do Master. Vorcaro foi preso sob suspeita de fraude em ativos financeiros.
O ex-banqueiro contratou o ex-ministro Guido Mantega como consultor por R$ 14 milhões. Ele buscava convencer o governo de que o BC cometia injustiças contra o Master e de que as carteiras de crédito transferidas ao BRB continham os valores declarados.
Os áudios com as conversas foram divulgados pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.
Tentativas de reunião com Lula
Warde e Vorcaro tentaram organizar encontros de Mantega e do advogado com Lula. Em 23 de julho de 2025, Warde procurou o ex-banqueiro enquanto estava com o então chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como “Marcola”.
Como Mantega estava em Londres, Warde sugeriu enviar um avião para buscá-lo. “Eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele para encontrar o presidente”, disse em áudio.
Em seguida, Warde repassou mensagens que afirmavam que Lula havia falado com Mantega por telefone e o chamaria quando ele voltasse ao Brasil. Dois dias depois, pediu urgência para uma videochamada com o ex-ministro. “É urgente, ele vai falar com você sabe quem no domingo”, escreveu.
Depois de uma chamada de 23 minutos com Mantega, Warde comemorou. “Parabéns”, disse. “Importante call. Vai dar certo”. Vorcaro respondeu: “Muito obrigado”. Em 31 de julho, o então banqueiro pediu que Warde falasse com a Presidência. “Você precisa conversar com o chefe”, afirmou. “Única chance nossa.” O advogado respondeu que tentava contato com o chefe de gabinete.

Guido Mantega foi ministro da Fazenda nos governos de Lula e Dilma | Foto: Reuters/Ueslei Marcelino/File Photo
Vorcaro insistiu em que Lula precisava ouvir que não havia problemas no negócio e que os danos seriam irreversíveis. “Vou resolver, vamos desarmar tudo isso”, respondeu Warde.
Em uma conversa de 23 de julho, Vorcaro mencionou alguém que pretendia acionar: “Alexandre”. “Sim. Vou pavimentar”, respondeu Warde. As mensagens possivelmente fazem referência ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Contatos com o Congresso e o Banco Central
Vorcaro também recebeu informações do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre conversas com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. Em 17 de julho de 2025, Motta informou que Galípolo iria à residência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central | Foto: Raphael Ribeiro/BC
Uma hora depois, ligou para Vorcaro. Depois da ligação, este relatou a Warde um impasse com o BC. “Galípolo acabou reunião agora”, disse. “Inventou nova desculpa. Que agora tem erros contábeis. Falou para o Hugo. Não dá mais. Eles não vão fazer.”
“Avise presidente amanhã e vamos pra guerra”, pediu o ex-banqueiro. “Vou levar a conhecimento do presidente”, respondeu o advogado.
Na mesma noite, Vorcaro criticou o então diretor do BC Renato Gomes, contrário à venda, e sugeriu pedir sua suspeição. O ex-banqueiro afirmou considerar que tinha apoio do STF, do Congresso e da Presidência. Na avaliação dele, Gomes atuava contra essas instituições.
O que dizem os políticos citados
A assessoria de Motta afirmou que o deputado agiu no exercício da atividade parlamentar e com respeito à institucionalidade. Já a assessoria de Alcolumbre e Moraes, porém, não se manifestaram.
O Planalto informou que Lula se reuniu com Vorcaro uma única vez, em 4 de dezembro de 2024. Na ocasião, o então banqueiro compareceu sem agendamento prévio, acompanhado de Mantega, Rui Costa e Galípolo.
Segundo a Presidência, Lula afirmou que o BC deveria analisar tecnicamente as denúncias. No entanto, o Planalto não informou se houve conversas posteriores com Mantega ou Warde.