Mas o aumento do rombo da estatal se deve a causas estruturais, ressalta a Oeste o economista Sérgio Belém Teixeira
Eugenio Goussinsky
Rombo dos Correios quase triplicou em 2025 | Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Os Correios, em 2025, registraram um rombo de R$ 8,5 bilhões, mais do que o triplo do déficit de R$ 2,6 bilhões em 2024. O estado financeiro precário da empresa foi influenciado em boa parte pela inclusão do imposto das blusinhas, nome popular dado à tributação de compras internacionais de pequeno valor feitas pela internet, especialmente em plataformas de comércio eletrônico como Shein, Shopee e AliExpress.
A retirada desta taxa, em Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na terça-feira 12, terá um impacto positivo sobre as finanças dos Correios. A partir do momento em que a cobrança entrou em vigor, em 2024, o déficit da empresa se potencializou. A distribuição de encomendas internacionais nas contas dos Correios caiu de 22% em 2023 para 7,8% em 2025, segundo o Diário Oficial da União.
“O fim desta taxa possivelmente vai servir como um grande impulso para as compras, e naturalmente a expectativa é que esse aquecimento das compras tenha um efeito positivo nas receitas dos Correios”, afirma a Oeste o economista Sérgio Belém Teixeira, formado pela Universidade Estadual Paulista. “A gente vai ter aí o efeito cascata, o aumento do número de compras, e isso vai se refletir no aumento de entregas e naturalmente vai refletir ali numa receita esperada maior para os correios, pode ajudar bastante com esse fim do imposto.”
A taxa das blusinhas foi determinante para a baixa, por ter acirrado um modelo de gestão deficitário. Em termos de valores, as receitas caíram de R$ 3,9 bilhões em 2024 para R$ 1,3 bilhão em 2025, ou seja, R$ 2,6 bilhões. O valor corresponde a 30,6% do montante do prejuízo, embora se trate de perda de receita e não de despesa adicional. A partir de janeiro de 2024, a cobrança de 20% de imposto de importação federal sobre compras até US$ 50, a taxa das blusinhas, aprovada pelo Congresso Nacional, reduziu o volume de encomendas internacionais, que eram uma das principais fontes de receita da estatal. Além disso, continuava a incidência de ICMS estadual, normalmente entre 17% e 20%, dependendo do Estado.
A taxa se configurou em um fator a mais para o péssimo resultado, que ampliou uma sequência de 14 trimestres consecutivos de resultados negativos iniciada no fim de 2022. Outros fatores foram a forte alta nas despesas judiciais, segundo a empresa. O pagamento de precatórios decorrentes de decisões transitadas em julgado somou R$ 6,4 bilhões, valor 55% superior ao registrado no ano anterior, de R$ 4,1 bilhões. A direção argumenta que parte dessas obrigações se refere a passivos herdados de gestões anteriores.
Mas as quedas de receita, segundo Teixeira, têm razões estruturais. Restringi-las à taxa das blusinhas é se ater a fatores superficiais. “A questão do rombo dos Correios vem bem antes, é uma história mais longa, anterior ao imposto das blusinhas”, afirma o economista. “É óbvio que esse imposto prejudicou, mas o rombo é muito mais estrutural e tem a ver com gestão ineficiente, com uma política de fretes muito diferente do que é praticado pelos concorrentes. O fim do imposto das blusinhas não seria suficiente para compensar a continuidade do problema estrutural que os Correios vivem.”
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), iniciado em janeiro de 2023, não tem conseguido equilibrar as contas dos Correios. Nomeou, no início da gestão, Fabiano Silva dos Santos para a presidência da estatal. A gestão de Santos foi marcada por deterioração financeira e perda de receitas. Em setembro de 2025, diante do agravamento do prejuízo bilionário e das críticas sobre a situação financeira da companhia, Emmanoel Schmidt Rondon substituiu Santos, para conduzir um processo de reestruturação e tentar estabilizar as contas da estatal.
Benefício indireto para os Correios
Neste momento, porém, o fim deste imposto, segundo Teixeira, não pode ser considerado mais uma movimentação do governo que teria, por trás do discurso, o objetivo de recuperar as finanças dos Correios. “Pelo cenário atual é difícil entender que a tomada de decisão do fim do imposto das blusinhas foi direcionado para impactar positivamente a receita dos Correios”, diz o economista. “Essa relação não é direta, porém, fica muito claro que, de forma indireta o fim desse imposto terá um impacto positivo para gerar uma esperada melhora na receita dos Correios.”
Além de empréstimos, de R$ 12 bilhões e de R$ 8 bilhões, com o Tesouro Nacional como avalista,os Correios lançaram um Plano de Demissão Voluntária (PDV) para conter gastos. Entre fevereiro e abril de 2025, aderiram ao programa 3.181 funcionários. O número foi menor do que o da meta inicial de cerca de 10 mil desligamentos. Nas duas rodadas do plano até agora, em 2024 e 2025, 3.756 empregados saíra da estatal. A economia estimada foi de R$ 147,1 milhões neste ano e de cerca de R$ 775,7 milhões em 2026. Isso não impediu que a empresa encerrasse o período com patrimônio líquido negativo de R$ 13,1 bilhões, reflexo das perdas acumuladas.