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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Mercado: Copom deixou 'porta aberta' para novo corte, mas sem se comprometer

Avaliação é de economistas e analistas do mercado consultados por Oeste depois de corte de 0,25 ponto porcentual nos juros

Fábio Matos

Sede do Banco Central do Brasil em Brasília | Foto: Rodrigo Oliveira/Caixa Econômica Federal

No comunicado que acompanhou a decisão de cortar a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 14% ao ano, nesta quarta-feira, 5, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), deixou a “porta aberta” para uma nova redução da Selic na reunião de setembro, mas evitou se comprometer com qualquer posição antecipadamente.

A avaliação é de economistas e analistas do mercado consultados pela reportagem de Oeste ainda na noite de quarta-feira, pouco depois do anúncio da queda dos juros. O corte de 25 pontos-base na Selic é o quarto consecutivo promovido pela autoridade monetária.

A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. A Selic é utilizada nas negociações de títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas da economia.

Quando o Copom aumenta os juros, o objetivo é conter a demanda aquecida, o que se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem conter a atividade econômica.

Ao reduzir a Selic, por outro lado, a tendência é que o crédito fique mais barato, com incentivo à produção e ao consumo, reduzindo o controle da inflação e estimulando a atividade econômica.

O que diz o mercado

Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o discurso do Copom no comunicado “passou de aceleração para moderação gradual” da atividade econômica, ainda considerada “resiliente”. “A inflação corrente desacelerou, embora siga acima do teto da meta, e os núcleos já estão ligeiramente abaixo do teto. No cenário externo, além do Oriente Médio, o Copom passou a citar a incerteza sobre a política monetária em economias avançadas”, observa.

“No balanço de riscos, o comunicado incorporou a menção explícita à assimetria altista, que a ata de junho já havia sinalizado. Também entrou um trecho sobre a desancoragem das expectativas de longo prazo, tratada como fator que eleva o custo de desinflação”, explica o economista.

Diante da incerteza elevada, afirma Kayo, o Copom optou por “serenidade e cautela, sem sinalizar os próximos passos”. “A porta ficou aberta para mais um corte em setembro, mas a decisão dependerá da evolução dos dados”, avalia.

Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, aponta como boa notícia o fato de que o BC reconheceu “uma desaceleração da inflação e da atividade econômica”. “A má notícia é que ele continua bastante preocupado com as expectativas de inflação e com o risco fiscal”, pondera.


“O comunicado retirou trechos que davam mais abertura para a continuidade dos cortes e reforçou que as próximas decisões dependerão dos dados”, prossegue Spyer. “Na prática, o BC deixou a porta aberta para um novo corte, mas não quis se comprometer. Agora, o mercado vai acompanhar de perto a evolução da inflação, do cenário fiscal e da atividade para entender se haverá espaço para mais uma redução da Selic em setembro.”

José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, entende que o comunicado do Copom “foi muito mais claro do que o da última reunião e chama a atenção para uma moderação da atividade econômica”.

“O mercado de trabalho continua aquecido, mas a política monetária bastante contracionista parece ter começado a produzir efeitos nos últimos meses. Os dados já começam a mostrar uma certa desaceleração da economia”, afirma.

“Um ponto importante é a preocupação com as expectativas de inflação, que continuam desancoradas e podem trazer dificuldades para o controle da inflação”, continua Camargo. “Por fim, o comunicado foi bastante claro ao afirmar que a magnitude do ciclo de cortes dependerá da evolução dos dados. Isso significa que os próximos passos da política monetária permanecem totalmente em aberto.”

Para Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, “um ponto de destaque no comunicado é a desancoragem adicional das expectativas de inflação mais longas, o que, segundo o BC, aumenta o custo da desinflação”. “Olhando o cenário à frente, entendemos que o texto deixa espaço para mais cortes, mas sem se comprometer em dar uma orientação”, avalia.

Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, afirma que a decisão do Copom pelo corte de 0,25 ponto porcentual na Selic “reflete um equilíbrio entre sinais mais favoráveis na inflação corrente e a permanência de riscos relevantes no horizonte prospectivo”.

“De um lado, a inflação cheia e as medidas subjacentes apresentaram desaceleração, enquanto os indicadores de atividade passaram a ser descritos como consistentes com uma trajetória de perda gradual de dinamismo ao longo de 2026. De outro, o mercado de trabalho permanece aquecido, as expectativas de inflação seguem acima da meta e o balanço de riscos continua assimétrico para cima”, afirma.

Segundo Benedito, “o comunicado também preservou uma avaliação conservadora sobre os riscos”. “O ambiente externo permanece marcado pelos conflitos no Oriente Médio, pela volatilidade das commodities e pelas incertezas sobre a política monetária das economias avançadas”, aponta.

“Internamente, o Copom voltou a destacar a possibilidade de maior persistência da inflação de serviços, os efeitos da desancoragem das expectativas, os riscos associados à política fiscal e eventuais estímulos ao consumo que reduzam a eficácia da política monetária”, completa a economista.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, entende que “a probabilidade de queda em setembro existe, mas é substancialmente menor do que aquela observada em agosto”.

“As portas permanecem abertas e existe uma probabilidade relevante de continuidade do corte em setembro, dada a comunicação atual do BC. Essa probabilidade, porém, é menor do que a de um corte em agosto, que acabou sendo efetivado”, afirma.

Para o economista, o diagnóstico é muito parecido com o apresentado anteriormente pelo BC, com “um cenário internacional ainda incerto, uma atividade que modera, mas com o mercado de trabalho aquecido, e uma inflação que desacelerou, mas permanece acima da meta”.

Gabriel Santos, head de research da Bloxs, também compartilha da avaliação de que a leitura do comunicado é de “continuidade com cautela”. O Copom reduziu a Selic, mas não entregou uma mensagem de aceleração do ciclo. Pelo contrário, manteve uma linguagem bastante prudente ao reforçar que o cenário segue marcado por aumento de incerteza, expectativas desancoradas e riscos elevados ao redor do cenário-base”, diz.

“O trecho mais relevante é aquele em que o comitê reafirma que ‘a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações’. Isso reduz a visibilidade sobre os próximos passos. Ou seja, o corte atual não deve ser lido como início de uma sequência automática”, explica Santos. “O Copom está dizendo que o ciclo existe, mas que o tamanho dele ainda depende da evolução da inflação, das expectativas, do câmbio, do fiscal e da atividade.”

Para Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos, o corte já era esperado pelo mercado, mas o comunicado “veio mais cauteloso do que muita gente apostava”. “A inflação segue acima do teto e o cenário externo, com a guerra entre EUA e Irã ainda sem solução, deixa o BC sem margem para acelerar o ritmo de cortes”, afirma.

A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 15 e 16 de setembro.

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