Registros do CadÚnico cresceram 97,4% desde dezembro de 2022; expansão persiste mesmo com plano federal de R$ 982 milhões
Isabela Jordão

Os maiores contingentes de moradores de rua permanecem concentrados nos grandes centros urbanos do Sudeste | Foto: Ev/Unsplash
A população registrada como em situação de rua no Brasil quase dobrou desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico). O total passou de 198,7 mil pessoas, em dezembro de 2022, para 392,4 mil em junho de 2026, um aumento de 97,4%, equivalente a 193,6 mil novos registros.
Principal base de dados do governo federal para identificar famílias de baixa renda e pessoas em situação de vulnerabilidade, o CadÚnico passou a incorporar, em média, 4,6 mil pessoas em situação de rua por mês desde janeiro de 2023. Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022, a média mensal havia sido de cerca de 2 mil novos registros.
A aceleração dos cadastros começou ainda em 2022, no período de recuperação da pandemia de covid-19, mas permaneceu elevada durante os primeiros anos do atual governo e voltou a ganhar intensidade no primeiro semestre de 2026. O levantamento foi realizado pelo jornal Gazeta do Povo.
Foto: Montagem Revista Oeste com auxílio do ChatGPT e informações do CadÚnico coletadas pela Gazeta do PovoA continuidade dessa trajetória enfraquece a hipótese de que o crescimento observado em 2023 decorreria principalmente da regularização de cadastros represados durante a pandemia. Caso essa fosse a única explicação, a expectativa seria de desaceleração gradual dos registros nos anos seguintes. Os números, contudo, mantiveram tendência de alta.
Os dados, entretanto, exigem cautela porque o CadÚnico não corresponde a um censo nacional da população em situação de rua. O aumento pode refletir tanto uma ampliação efetiva desse contingente quanto avanços na capacidade de cadastramento e atualização das informações pelos municípios.
Ainda assim, a comparação utiliza a mesma base de dados ao longo de todo o período analisado, permitindo observar a evolução dos registros.
Bolsa Família e questionamentos no Congresso
Em julho de 2025, o governo federal incluiu, por meio de portaria, famílias com pessoas em situação de rua entre os grupos prioritários para ingresso no Bolsa Família. A medida foi apresentada como forma de ampliar a proteção social destinada a essa parcela da população.
Cartão do Bolsa Família | Foto: Jefferson Rudy/Agência SenadoA iniciativa, contudo, passou a ser alvo de questionamentos na Câmara dos Deputados. O deputado Hélio Lopes (PL-RJ) apresentou requerimento de informação ao governo citando denúncias de que organizações criminosas estariam se apropriando de cartões do Bolsa Família pertencentes a pessoas em situação de rua.
O tema também foi debatido em audiência pública convocada pelo deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) no início de junho.
Em dezembro de 2023, o governo lançou o Plano Nacional Ruas Visíveis, com investimento inicial anunciado de R$ 982 milhões. A iniciativa foi apresentada como resposta ao aumento da população em situação de rua.
Naquele mês, o CadÚnico registrava 262,5 mil pessoas nessa condição. Em junho de 2026, o número alcançou 392,4 mil, acréscimo de aproximadamente 130 mil registros desde o lançamento do programa.
Morador de rua no calçadão da Rua São Bento – 03/08/2022 | Foto: Cristyan Costa/Revista OesteO Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) sustenta que parte desse crescimento decorre do aprimoramento do cadastramento.
Em 2025, a pasta informou à Agência Brasil que retomou, em 2023, a capacitação de entrevistadores e operadores do CadÚnico, fortalecendo o trabalho dos municípios. O ministério também atribuiu parte da elevação dos números a uma suposta subnotificação entre 2019 e 2022.
Ex-ministro da Cidadania no governo Jair Bolsonaro, o deputado Osmar Terra (PL-RS) contesta essa interpretação.
“Não existe subnotificação no governo anterior. Quem faz esse levantamento, quem dá e fornece esses números, são os municípios”, disse à Gazeta. “São, em geral, funcionários dos municípios, da área social, que fazem esse levantamento. Então, não depende do governo federal o número.”
O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) é formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro | Foto: Reprodução/Câmara dos DeputadosO deputado ressaltou que o número “não é inventado pelo governo federal”, mas vem direto dos municípios. “São as mesmas pessoas, normalmente, que estão em um período de governo federal e no outro período de governo federal subsequente.”
Já o MDS do governo Lula atribuiu o crescimento da população em situação de rua à “fragilização de vínculos familiares, como casos de violência e abuso, além de desemprego, crises econômicas e eventos climáticos extremos”. A pasta acrescentou que “o Cadastro Único também ficou mais eficiente”.
Questionado sobre quais estudos ou relatórios técnicos sustentariam a tese de subnotificação nos anos anteriores, o ministério não respondeu especificamente a esse ponto.
Norte lidera crescimento proporcional da população de rua
Embora os maiores contingentes permaneçam concentrados nos grandes centros urbanos do Sudeste, o crescimento proporcional mais intenso ocorreu nas regiões Norte e Nordeste.

Morador de rua na Avenida Paulista | Foto: Márcio Komura/Revista Oeste
No Norte, os registros saltaram de 4,9 mil pessoas em janeiro de 2023 para 22,8 mil em junho de 2026, avanço de 367%. O Nordeste registrou crescimento de 109%, passando de 29,1 mil para 61 mil pessoas cadastradas.
Nas demais regiões, a expansão ficou abaixo da média nacional, mas permaneceu elevada: 85% no Sudeste, 83% no Sul e 79% no Centro-Oeste.
Entre os Estados, Roraima apresentou a maior variação proporcional. A quantidade de pessoas em situação de rua registradas no CadÚnico passou de 1.460 para 10.162 entre janeiro de 2023 e junho de 2026, quase sete vezes mais. O Estado faz fronteira com a Venezuela e enfrenta impactos relacionados ao fluxo migratório vindo do país vizinho. Rondônia registrou aumento de 450% no mesmo período.
São Paulo, que concentra o maior número absoluto de pessoas em situação de rua cadastradas no país, também apresentou crescimento expressivo: 88% desde o início do atual mandato presidencial.
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