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quarta-feira, 1 de julho de 2026

O terror das prisões chinesas

Relatório da organização Safeguard Defenders denuncia tortura e mortes nos centros de detenções do país

Uiliam Grizafis

Relatório da Safeguard Defenders denuncia casos de tortura no Centro de Detenção 3 de Pequim, na China | Foto: Reprodução/Freepik

A vida do australiano Matthew Radalj mudou completamente em janeiro de 2020. O empresário e ex-morador de Pequim, na China, alega ter sido preso injustamente naquele mês depois de envolver-se em uma discussão num shopping da capital chinesa. Depois da prisão, Radalj foi brutalmente espancado por policiais e só viu um advogado na audiência, que ocorreu 11 meses depois.

A história do australiano foi divulgada num relatório divulgado pela Safeguard Defenders, organização dedicada a denunciar abusos do Partido Comunista Chinês. Segundo o documento, as torturas sofridas por Radalj no Centro de Detenção nº 3 o fez esquecer seu próprio nome. Além disso, os chineses o privaram de ter assistência jurídica, o expuseram ao frio e não o deixaram dormir por oito meses.
O empresário australiano Matthew Radalj sofreu torturas em prisões da China. Ele foi libertado e hoje ajuda outros presos | Foto: Reprodução/X

Para forçá-lo a assinar uma confissão por roubo, a polícia chinesa o maltratou com tortura sonora, em que os agentes ligam os autofalantes da cela com música no volume máximo. Sob imensa pressão, Radalj concordou em assinar a confissão. “Disseram-me que o crime de roubo começa aos seis anos e depois passa para uma prisão perpétua”, contou à Safeguard Defenders. “Tive de assinar, pensei, porque poderia voltar para casa em 2024.”

O australiano relata que havia mais de 25 pessoas em uma de suas celas. “Não há beliches no Centro de Detenção nº 3”, conta. “A parede é de cimento. Não há colchão. O preso ganha apenas um cobertor.”

Estrangeiros presos na China

Radalj relata que dividia a cela com nigerianos, africanos orientais, norte-americanos, canadenses e britânicos. Segundo o australiano, a polícia designa um preso para comandar as celas. Estes, por sua vez, conseguem mais privilégios dentro da prisão. O empresário diz ainda ter levado choque elétrico na cadeia. “Os guardas são psicopatas e agem em grupo”, afirma. “São oito contra um. Dez contra um. Fui deixado nu do lado de fora com um cachorro que latia para mim. Depois, me fizeram voltar para a cela. Quando finalmente me vestia e me aquecia, me levavam para fora novamente. Faziam isso em ciclos de seis minutos, durante 40 ou 48 horas.”

As refeições no Centro de Detenção nº 3 eram escassas. Não havia arroz. No almoço, eram servidas cenouras cozidas em água sem tempero. No jantar, batatas com casca. “Uma vez por semana, davam pequenos pedaços de frango ou bolinhos de peixe.”

Radalj foi transferido para a prisão nº 2 de Pequim — uma unidade para detentos estrangeiros — em 23 de maio de 2021 e permaneceu até outubro de 2024. Enquanto esteve na prisão, confeccionava máscaras de proteção contra a covid-19. O australiano escrevia pequenas frases dentro delas com listas de contatos de familiares de outros detentos. Também informava que os presos não conseguiam se comunicar com ninguém de fora da prisão havia anos.
A contribuição de Radalj

Atualmente, Radalj faz campanha em favor das pessoas que estão presas na China. Ele se comunica com os familiares e pressiona os consulados por melhor assistência aos estrangeiros.

O relatório da Safeguard Defenders denuncia outros casos de tortura no Centro de Detenção nº 3 de Pequim. O documento cita, por exemplo, Li Qiaoming, de 24 anos, que foi espancado até a morte por um colega detento que atuava como “chefe de cela”. Em 2014, um homem, cuja identidade não foi revelada, morreu depois de ficar mais de 50 horas sob interrogatório policial. Seis anos depois, um jovem de 19 anos morreu num centro de detenção da Província de Sichuan, “reduzido a pele e osso”. Em 2021, outro jovem de 19 anos foi encontrado morto em sua cela na Província de Hunan. Ele estava com a boca e o nariz tapados com fita adesiva.

A Safeguard Defenders afirma que “esse padrão de mortes em centros de detenção reflete uma falha estrutural no sistema” chinês. Não há, segundo a organização, “órgãos de supervisão independentes com poder para inspecionar, investigar e garantir a responsabilização”.

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