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segunda-feira, 9 de março de 2026

Irã não é Venezuela: por que é mais difícil derrubar o regime dos aiatolás

Pouco mais de um mês depois de capturar Nicolás Maduro e sua mulher, EUA, mesmo ao lado de Israel, encontram maior resistência do governo teocrático xiita

Eugenio Goussinsky

Guarda Revolucionária Islâmica do Irã é uma força militar poderosa | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A captura do ex-ditador Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, durou apenas alguns minutos, em janeiro deste ano, na Venezuela. O fato de a força de elite Delta, dos Estados Unidos (EUA), ter chegado de helicóptero ao Forte Tiuna e ter sido recebida a tiros por militares venezuelanos foi quase irrelevante para os norte-americanos. Eles conseguiram furar o bloqueio e avançar até o bunker e levar o casal para julgamento nos EUA. Naquele momento, o governo de Donald Trump colocou fim a um período de mais de 12 anos de opressão no país.

Pouco mais de um mês depois, mesmo com todo o preparo das forças Delta e do arsenal utilizado contra o Irã, os EUA não têm a mesma facilidade para derrubar o regime teocrático xiita. Nem mesmo a morte do aiatolá Ali Khamenei é suficiente. Tampouco o fato de ter um aliado de primeira linha, em termos militares: Israel. A verdade é que, apesar da destruição de grande parte do arsenal iraniano, da ruína econômica em que o país entrou e da disparidade de forças, a estrutura de poder enraizada se mantém.

No Irã, o poder não está centralizado em apenas numa pessoa, mas numa teocracia complexa, com uma rede de instituições que sustentam o regime. O líder supremo (até há pouco tempo, Khamenei) é o chefe máximo, e sua autoridade é reforçada por clérigos, conselhos religiosos e militares com lealdade direta ao sistema religioso-político.

Esse modelo impede que uma troca de liderança simplesmente substitua um presidente por outro, como aconteceu na Venezuela, com Nicolás Maduro. Há diversas camadas de guarda do regime (política, religiosa e militar) interligadas, projetadas para resistir a rupturas abruptas.

Estruturas do Irã e da Venezuela

A “vascularização” da segurança do regime é uma de suas garantias no Irã. Uma coisa é destruir o arsenal militar, direcionado a conflitos externos. Outra é tirar essa casta religiosa do poder, já que todo o arsenal direcionado para isso, que inclui a repressão interna, não foi afetado.

A rede de proteção é complexa, formada, lá nos níveis mais altos, pela Corporação da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC): força militar poderosa, leal diretamente ao líder supremo, com unidades terrestres, navais, aéreas próprias e a Força Quds (para operações externas). Ela é um “Estado dentro do Estado”, criada especificamente para defender a revolução e impedir mudanças radicais.

Há ainda, como suporte, as Forças Basij: milícia paramilitar de mobilização interna, usada para vigilância e repressão a dissidências, reforçando a coesão ideológica. O sistema se espalha por todo o país, alcançando o mais remoto vilarejo. Nele também se inclui o Exército regular (Artesh): ainda numeroso e estruturado, com dezenas de brigadas e reservistas.

A Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb) venezuelana não pode ser desprezada pelo seu porte. É grande para a região, com cerca de 150 mil militares ativos e milícias bolivarianas associadas. Mas o sistema não é tão estruturado como o do Irã. A base dessas forças de segurança é muito politizada, mas menos profissionalizada do ponto de vista da defesa do regime de forma autônoma.

Não existem unidades militares separadas com cadeia de comando própria, como a IRGC tem no Irã. Há uma guarda presidencial, mas sem o mesmo porte que funcione como corpo independente para proteger o regime. Os últimos que tentaram salvar Maduro foram os 32 cubanos que morreram durante a operação militar. Sem tantos recursos, eles eram membros das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e do Ministério do Interior cubano, que atuavam em missão na Venezuela.

A IRGC, com cerca de 190 mil militares ativos, não é apenas uma guarda militar, mas um pilar do regime, com interesses próprios e grande influência econômica e política, além do controle do programa de mísseis balísticos. Responde diretamente ao líder supremo, não ao presidente. Diferente de qualquer força venezuelana equivalente.

O ex-chefe do Grupo de Operações no Iraque da CIA, Luis Rueda, fez tal comparação ao The Guardian: “O Irã não é a Venezuela… Remover alguns líderes não significa que o sistema colapse”.

A Oeste, a professora Liora Hendelman-Baavur, diretora do Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Tel-Aviv, também descreveu a situação. E colocou um ingrediente a mais para complicar qualquer tentativa de derrubar o governo dos aiatolás. O tempo em que eles estão no poder é mais longo do que o do regime bolivariano na Venezuela. A Revolução Islâmica ocorreu em 1979, quase 20 anos antes da eleição de Hugo Chávez, em 1998. Essa diferença deu mais tempo para o regime estruturar sua proteção.

“A resiliência do regime se apoia em vários pilares”, destacou a professora. “Há controles constitucionais e mecanismos de filtragem política: órgãos não eleitos, como o Conselho dos Guardiões, limitam quem pode concorrer a cargos públicos e restringem o poder do Parlamento. Existe também um aparato coercitivo em camadas, com o poder distribuído entre a IRGC, a Basij e diversos serviços de inteligência, criando redundâncias na repressão ao dissenso. Soma-se a isso o entrelaçamento econômico dos atores de segurança.”

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