Editorial acusa Lula e Moraes de perseguir o senador e afirma que parte da sociedade normalizou o arbítrio contra adversários
Isabela Jordão
Em editorial publicado nesta segunda-feira, 26, o jornal Gazeta do Povo define a apreensão do passaporte do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como “vingança pura dos vencedores contra os derrotados”. A ordem partiu do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), um dia depois da derrota de Flávio no segundo turno da disputa presidencial.
Para o jornal, a medida concretiza uma ameaça feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao adversário durante a campanha e não tem base em indícios de risco de fuga. O texto também critica parte da sociedade que, segundo a Gazeta, passou a tratar como normal a perseguição a um dos lados do espectro político.
A Polícia Federal (PF) cumpriu a ordem na tarde de segunda-feira. Flávio também foi informado de que está proibido de deixar o país. O senador mantém a imunidade parlamentar, já que seu mandato ainda não terminou.
O editorial lembra a fala de Lula, reeleito no domingo 25, no último debate antes do segundo turno. “Você se prepare, que dia 25 você vai perder imunidade”, disse o petista a Flávio. Lula também mencionou os inquéritos contra o adversário e declarou: “Se os seus amigos não estão deixando andar, agora vai andar”.
Flávio é investigado em três inquéritos no STF. O primeiro, sob relatoria do ministro André Mendonça, apura o aporte de dinheiro do Banco Master, de Daniel Vorcaro, na produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para a Gazeta, Mendonça, indicado à Corte por Jair Bolsonaro, seria um dos “amigos” citados por Lula no debate. Moraes relata os outros dois inquéritos. Um apura suposta calúnia contra Lula. O outro investiga suposta lavagem de dinheiro e envolve o advogado Willer Tomaz, também investigado no caso dos descontos indevidos em benefícios de aposentados do INSS.
A apreensão do passaporte ocorreu no âmbito deste último inquérito. O pedido partiu de três deputados federais governistas: Duda Salabert (Psol-MG), Otoni de Paula (PSD-RJ) e Rogério Correia (PT-MG).
O advogado Willer Tomaz | Foto: Reprodução/Redes sociaisO jornal reconhece que o artigo 320 do Código de Processo Penal prevê a apreensão de passaporte como medida cautelar contra investigados, denunciados e réus. Ressalta, no entanto, que uma restrição ao direito de ir e vir exige razões muito fundadas.
Segundo o editorial, o único elemento disponível é uma declaração do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, que vive nos Estados Unidos desde março de 2025. Em entrevista ao comentarista político Steven Crowder, na sexta-feira 23, o ex-parlamentar apoiou a saída de Flávio do país em caso de derrota.
“Eu assumo que, se meu irmão não vencer, sou a favor de que ele deixe o país”, disse Eduardo.
Para a Gazeta, a fala de um terceiro, ainda que parente, não basta para configurar risco de fuga. O jornal também rejeita como argumento a saída de Jair Bolsonaro do Brasil no fim de 2022, quando perdeu a eleição para Lula.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ao lado do irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) | Foto: Reprodução/YouTubeO texto questiona se a PF encontrou conversas do senador sobre uma possível fuga ou identificou a compra de alguma passagem aérea. “Até onde se sabe, não existe nada nesse sentido”, afirma o editorial. Sem um elemento real, conclui o jornal, a medida é um ato de vingança com a colaboração de um magistrado moralmente comprometido.
O editorial lembra decisões anteriores de Moraes com a mesma justificativa. Em junho de 2024, o ministro mandou de volta à prisão 208 réus ou condenados pelos atos do 8 de janeiro por “receio de fuga”. Moraes não comprovou o risco em nenhum dos casos.
Em dezembro de 2025, o ministro do STF determinou a prisão domiciliar de dez condenados no processo sobre a suposta trama golpista, entre eles o ex-assessor presidencial Filipe Martins e sete integrantes ou ex-integrantes das Forças Armadas.
Para o jornal, eles pagaram pela tentativa de fuga de Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal capturado no Paraguai, e pela saída do ex-deputado Alexandre Ramagem para os Estados Unidos.
Silvinei Vasques foi detido pelas autoridades do Paraguai em 26 de dezembro de 2025 I Foto: Divulgação/Polícia do Paraguai“Letargia”: sociedade normaliza perseguição política, diz Gazeta
A parte final do editorial trata da forma como a medida contra Flávio Bolsonaro foi recebida. Para a Gazeta, o fato de a apreensão ser noticiada quase como desdobramento natural da derrota do senador “deveria nos assustar”.
“Boa parte da sociedade e da opinião pública normalizou a tal ponto a perseguição a determinado lado do espectro político-ideológico que se tornou cega para o que é, claramente, um ato de vingança de um governo que quase se viu destronado, em parceria com um ministro do STF cujo impeachment foi defendido por quem agora se torna alvo da medida abusiva”, afirma a Gazeta do Povo.
“O país precisa acordar urgentemente dessa letargia”, afirma o editorial. A Gazeta afirma que o arbítrio continua a ser arbítrio quando atinge adversários ou pessoas por quem se nutre antipatia.
O texto termina com uma crítica a quem diz apoiar Lula e Moraes com a justificativa de proteção da democracia. Para o jornal, essas pessoas “ou não sabem quem são Lula e Moraes, ou não sabem o que é democracia”.

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