Conceitos de segurança mudaram não só no país, mas no mundo todo em função dos ataques terroristas que mataram quase 3 mil pessoas
Eugenio Goussinsky
0 9/11 Memorial foi criado no local do antigo World Trade Center | Foto: Reprodução/Instagram 9/11 Memorial
Os Estados Unidos chegam, nesta sexta-feira, aos 25 anos dos atentados de 11 de setembro diante de um desafio. O país não sofreu, desde 2001, outro ataque terrorista de dimensão comparável, mas especialistas em segurança ressaltam que os perigos não desapareceram. Mudaram de forma e transformaram o conceito de segurança e as relações entre os países depois daqueles ataques, que mataram cerca de 3 mil pessoas.
Nova York preparou uma série de homenagens para marcar o quarto de século desde os atentados. O contestado prefeito Zohran Mamdani assinou uma ordem executiva para reconhecer oficialmente o 11 de setembro como Dia de Memória e Serviço.
No Bryant Park, haverá homenagem em uma instalação que reuniu 2.753 cadeiras, voltadas para a região onde ficavam as Torres Gêmeas, em referência às vítimas dos ataques em Nova York. Também está prevista a tradicional cerimônia no local do antigo World Trade Center, onde hoje está a sede do 9/11 Memorial. A cerimônia será privada para familiares das vítimas,
A preservação da memória, porém, convive com controvérsias. O jornal Israel Hayom citou uma orientação do responsável pelos padrões jornalísticos da Canadian Broadcasting Corporation (CBC) para que profissionais da emissora evitassem classificar diretamente o 11 de setembro como “ataque terrorista”.
Depois da repercussão, a CBC voltou atrás, mas deu margem a questionamentos sobre as distorções que o tempo provocou naquela tragédia. O Canadá perdeu 24 cidadãos nos ataques.
Os atentados foram executados por 19 integrantes da organização terrorista Al-Qaeda, que sequestraram quatro aviões comerciais. Duas aeronaves atingiram as torres do World Trade Cente. Outra foi lançada contra o Pentágono, em Washington. A quarta, o voo 93 da United Airlines, caiu na Pensilvânia depois da reação de passageiros e tripulantes.
A discussão sobre a memória histórica ocorre enquanto especialistas manifestam outra preocupação. De acordo com o The Guardian, profissionais ligados à inteligência e ao contraterrorismo dos EUA afirmam que a estrutura criada depois de 2001 enfrenta perda de pessoal experiente, redução de recursos e dispersão das prioridades.
O diagnóstico não significa que os EUA estejam diante de uma ameaça equivalente à que precedeu o 11 de setembro. Um relatório das Nações Unidas divulgado em agosto revelou que a liderança central da Al-Qaeda continuava marginalizada e que permaneciam incertas tanto sua capacidade quanto sua intenção de realizar operações externas.
Depois dos ataques, o governo do então presidente George W. Bush iniciou, em outubro de 2001, operações militares no Afeganistão para derrubar o regime do Talibã, que abrigava Osama bin Laden e a Al-Qaeda. Em 2003, começou a Guerra do Iraque, justificada pelo governo Bush, entre outros argumentos, pela premissa de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.
A queda de Saddam também abriu espaço para organizações jihadistas. O grupo liderado por Abu Musab al-Zarqawi se tornou a Al-Qaeda no Iraque e, depois de sucessivas transformações e rupturas, esteve na origem do Estado Islâmico.
A ameaça também mudou de perfil. O conceito de “lobo solitário” reconfigurou o modelo de proteção dos países. Os sistemas de segurança passaram a lidar não apenas com grandes organizações capazes de planejar operações internacionais, mas com indivíduos ou pequenas células com pouco ou nenhum contato operacional direto com grupos terroristas. As investigações se tornaram mais complexas e aceleraram a corrida tecnológica por sistemas de inteligência, vigilância e prevenção de atentados.
Ao mesmo tempo, outras ameaças, de caráter geopolítico, ganharam espaço na estratégia norte-americana. A partir de 2018, a competição de longo prazo com China e Rússia passou a receber maior atenção.
A atual administração Donald Trump acrescentou outras prioridades à estrutura de contraterrorismo. A classificação de cartéis mexicanos como organizações terroristas estrangeiras e a estratégia apresentada em maio aumentaram a atenção às ameaças no Hemisfério Ocidental. O documento, porém, mantém o combate a organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico.
Críticos dessa ampliação, segundo o The Guardian, avaliam que ela pode dispersar recursos destinados ao combate ao terrorismo jihadista. Por outro lado, a nova estratégia procura adaptar a estrutura antiterrorista a ameaças que o governo considera mais diretamente relacionadas à segurança atual dos EUA, sem se descuidar do perigo do radicalismo islâmico.
Outra preocupação é a saída de profissionais experientes e o encerramento de programas destinados a combater ideologias extremistas e prevenir processos de radicalização. Don Rassler, diretor de iniciativas estratégicas do Combating Terrorism Center, de West Point, advertiu para o risco de a comunidade de inteligência reproduzir dinâmicas que contribuíram para as falhas anteriores ao 11 de setembro.
Antes de 2001, afinal, Bin Laden já havia declarado guerra aos EUA. Atentados contra duas embaixadas norte-americanas no leste da África, em 1998, e o ataque ao destróier USS Cole, no Iêmen, em 2000, demonstravam a capacidade operacional da Al-Qaeda. As investigações posteriores identificaram falhas no tratamento dos alertas e no compartilhamento de informações entre órgãos como FBI e CIA.
A ausência de outro ataque da magnitude do 11 de setembro não eliminou o terrorismo de inspiração jihadista nos EUA. Uma tentativa de explodir um avião que se aproximava de Detroit, em 2009, fracassou, porque o explosivo não detonou. Dez anos depois, um oficial saudita da Força Aérea matou três pessoas na Flórida em uma ação posteriormente relacionada à Al-Qaeda na Península Arábica.
Um levantamento do Center for Strategic and International Studies (CSIS) contabilizou 140 ataques e planos de atentados jihadistas nos EUA entre 1994 e o início de 2025. O próprio estudo, porém, concluiu que os dados não indicavam um ressurgimento consistente desse tipo de terrorismo no país. Organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico passaram a exercer principalmente um papel de inspiração, enquanto vínculos operacionais diretos com autores de ataques nos EUA se tornaram relativamente raros.
Mamdani é criticado por familiares de vítimas do 11 de setembro
O debate também alcança a memória do 11 de setembro e a maneira como as gerações mais jovens interpretam o episódio. O Israel Hayom relatou que uma pesquisa da J.L. Partners realizada em 2023, depois da repercussão nas redes sociais da Carta à América, escrita por Bin Laden, mostrou que 20% dos entrevistados de 18 a 29 anos, tinham uma visão completamente ou parcialmente positiva do líder da Al-Qaeda. Para os da geração Z, entre 14 e 29 anos, 31% as ideias do terrorista eram uma “força para o bem”.
A política nova-iorquina também entrou nessa discussão. O esquerdista Mamdani enfrenta resistência de parte dos familiares de vítimas à sua presença nas cerimônias. Uma petição para impedir sua participação reuniu quase 100 mil assinaturas. Outros parentes de vítimas, porém, defenderam seu direito de comparecer e criticaram a transformação da cerimônia em uma disputa política.
Um quarto de século separa os EUA das imagens das Torres Gêmeas destruídas. Nesse período, uma nova estrutura de segurança passou a vigorar. Dela, surgiram outras vertentes. Em função de ameaças que também mudaram, assim como os métodos terroristas. O desafio agora é adaptar a estrutura criada depois daqueles atentados a essas novas ameaças. E, ao mesmo tempo, evitar que eles se repitam.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por seu comentário.