Histórico do filho do presidente inclui investigações ligadas à Gamecorp e à Lava Jato, mas ele nunca virou réu
Isabela Jordão

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é um dos filhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Reprodução/YouTube/Metrópoles
O empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, voltou a ser investigado pela Polícia Federal (PF) cerca de duas décadas depois de seu nome entrar no debate político nacional durante o primeiro mandato do pai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O filho mais velho do presidente já foi alvo de investigação no processo que levou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios e na Operação Lava Jato.
Hoje, o filho do presidente é alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em desdobramentos das investigações sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Dois casos tramitam sob relatoria do ministro André Mendonça e um está com o ministro Flávio Dino.
As novas apurações têm como ponto central a relação de Fábio Luís com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado pela PF como um dos principais operadores do esquema de descontos ilegais em aposentadorias. A defesa do empresário nega qualquer irregularidade e afirma que sua inocência será demonstrada.
Lulinha admitiu ter viajado às custas de Careca do INSS | Foto: Lula Marques/ Agência BrasilLulinha ganhou projeção em 2005, quando a Telemar — atual Oi — investiu R$ 5 milhões na produtora Gamecorp, da qual ele era sócio. A empresa produzia conteúdo sobre videogames para emissoras de televisão.
Na época, a Telemar informou que metade do valor correspondia à aquisição de 35% da produtora e a outra metade remunerava a exclusividade do conteúdo. A consultoria DBO Trevisan, responsável por buscar investidores para a Gamecorp, sustentou que um acordo de confidencialidade impedia a operadora de conhecer a identidade dos sócios.
A operação comercial entrou no radar da CPI dos Correios, instalada em 2005 para investigar casos de corrupção em estatais e que revelou o esquema do Mensalão. Como concessionária de serviço público, a Telemar mantinha participação indireta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de fundos de pensão estatais, circunstância que motivou questionamentos parlamentares.
Telemar mantinha participação indireta do BNDES | Foto: Divulgação/CNI
Telemar mantinha participação indireta do BNDES | Foto: Divulgação/CNINaquele período, opositores do governo levantaram suspeitas sobre o crescimento patrimonial de Lulinha. Em discurso no Senado, em 2006, o então senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) afirmou: “Alguém com [salário de] R$ 600 num jardim zoológico passa a acumular uma pequena ou grande fortuna a partir do acordo que fez”.
O Ministério Público Federal abriu investigação sobre o caso em 2005. Foram solicitadas informações à Telemar e ao BNDES, mas não houve depoimentos dos envolvidos. Em 2012, o procedimento foi arquivado por falta de provas.
Ao justificar a decisão, o procurador Marcus Goulart afirmou: “Todas essas ilações podem convencer os leigos, mas são absolutamente insuficientes para levar o operador do direito a tomar uma decisão”.

Lulinha mudou-se para Madri em 2025 com a família | Foto: Reprodução/YouTube/Metrópoles
Na época, Lula saiu em defesa do filho. Em entrevista concedida em 2006, declarou que Fábio Luís e seus sócios fizeram “um negócio que deu certo”. Também comparou o sucesso empresarial ao desempenho de atletas famosos: “Deve haver um milhão de pais reclamando: por que meu filho não é o Ronaldinho? Porque não pode todo mundo ser o Ronaldinho”.
Lulinha também foi investigado na Lava Jato
O nome de Lulinha reapareceu nas investigações em 2016, durante a 24ª fase da Operação Lava Jato, que apurava a relação de Lula com empreiteiras. Um laudo da Polícia Federal apontou que empresas haviam investido R$ 103 milhões na Gamecorp, sendo R$ 82 milhões provenientes da Oi Móvel e da Telemar Internet.
Na ocasião, a Oi afirmou que contratava a Gamecorp para produzir conteúdo do canal da Oi TV e administrar direitos de transmissão da PlayTV. O laudo da PF não apresentava conclusões sobre eventual prática de crimes.
A Operação Lava Jato começou em 2014, quando a Polícia Federal desmantelou uma operação de lavagem de dinheiro em um lava-jato de Brasília | Foto: Fernando Frazão/Agência BrasilEm 2019, a 69ª fase da Lava Jato voltou a examinar os repasses feitos por empresas de telefonia. A Polícia Federal chegou a pedir a prisão de Fábio Luís, mas o pedido foi rejeitado pela juíza Gabriela Hardt. Os investigadores suspeitavam que recursos transferidos às empresas do empresário tivessem financiado a compra do sítio de Atibaia frequentado por Lula.
Segundo a investigação, a Oi repassou R$ 132 milhões às empresas de Fábio Luís e do empresário Jonas Suassuna, enquanto a Vivo teria transferido cerca de R$ 40 milhões. A defesa sustentou que a força-tarefa reaproveitava um caso já arquivado e afirmou que a vida do empresário havia sido devassada “por anos a fio”.
As investigações foram arquivadas em 2022. A decisão ocorreu depois de o STF reconhecer a suspeição do então juiz Sergio Moro e anular provas que embasavam parte das apurações.
A juíza Gabriela Hardt, que substituiu Moro na vara responsável por julgar ações da Lava Jato | Foto: Reprodução/FacebookNovos inquéritos no STF
O escândalo dos descontos ilegais em aposentadorias recolocou Fábio Luís sob investigação. A empresária Roberta Luchsinger afirmou à PF que apresentou Lulinha ao Careca do INSS. A defesa do empresário confirmou que o lobista custeou uma viagem a Portugal para que ele conhecesse projetos ligados à cannabis medicinal.
Em fevereiro, o STF autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís, a pedido da PF, medida também adotada pela CPI mista do INSS. Dados encaminhados à comissão indicam movimentação de cerca de R$ 19,5 milhões em quatro anos, incluindo R$ 9,7 milhões recebidos e valor semelhante transferido a terceiros.
Os advogados sustentaram que o vazamento das informações foi “revelador e tranquilizador”, porque não apontou transferências financeiras entre Lulinha, Roberta Luchsinger e o Careca do INSS.
A empresária Roberta Luchsinger, conhecida pela proximidade com Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Reprodução/Instagram/Roberta LuchsingerO primeiro dos novos inquéritos investiga suspeitas de corrupção e tráfico de influência em possível atuação junto ao Ministério da Saúde para viabilizar a comercialização de cannabis medicinal. O segundo apura eventual interferência na Dataprev para beneficiar um empresário interessado em contratos públicos.
A terceira investigação, distribuída por sorteio ao ministro Flávio Dino, examina suspeitas de vazamento de informações sigilosas e tráfico de influência. Em todos os casos, a defesa afirma que não houve irregularidades e atribui as investigações a motivações políticas. Na semana passada, o presidente Lula declarou que o filho “não terá privilégios” e que não pretende interferir nas apurações.
Fábio Luís mudou-se para a Espanha em 2025, quando abriu uma empresa no país europeu. Segundo sua defesa, a companhia foi constituída em conformidade com a legislação local e tem como finalidade o desenvolvimento de projetos futuros.
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