Rafael Arty analisa os pontos fortes e os pontos fracos do único canal a transmitir no Brasil todos os jogos da Copa do Mundo 2026
Anderson Scardoelli

Casimiro Miguel é o fundador da CazéTV | Foto: Divulgação/CazéTV
A CazéTV tem batido recordes de audiência no YouTube com a cobertura da Copa do Mundo deste ano. O alcance não é, entretanto, o único trunfo do canal, avalia Rafael Arty, especialista em marketing de influência e diretor comercial da Timelens, empresa focada em dados e pesquisas digitais.
O primeiro ponto positivo da CazéTV, segundo Arty, se deve ao trabalho de bastidor. Isso porque o canal foi o único a comprar os direitos de transmissão de todos os jogos da atual edição do torneio. A Globo, por exemplo, só pode exibir metade das partidas — limitação que permanece, inclusive, nas fases de mata-mata.
Outro destaque apontado pelo especialista em marketing de influência é o estilo, que foge do padrão da televisão e tem seu fundador e principal apresentador como símbolo. “O que diferencia a CazéTV é a linguagem”, afirma Arty. “O canal nasceu na internet, fala internet e tem na figura de Casimiro Miguel um apresentador que não se comporta como âncora de telejornal. Ele reage, ri, perde a compostura, torce junto. Esse estilo informal e participativo é exatamente o que o público jovem espera de uma transmissão ao vivo em 2026.”
Há, contudo, pontos de atenção. De acordo com Arty, a CazéTV abusou da publicidade de casas de apostas esportivas, as populares bets. O que seria outro ponto fraco, ainda mais na comparação com a televisão, o delay acabou sendo compreendido pela audiência, conforme estatística citada pelo especialista.
Entrevista com Rafael Arty, sobre a CazéTV
Confira, abaixo, a análise completa de Rafael Arty a respeito da cobertura da CazéTV nesta Copa do Mundo.

Rafael Arty trabalha com marketing de influência há mais de dez anos. Atualmente, é diretor comercial da Timelens | Foto: Arquivo pessoal/Rafael Arty
O que explica o sucesso da CazéTV na cobertura da Copa do Mundo deste ano?
O sucesso da CazéTV na Copa do Mundo tem uma combinação de fatores estratégicos e culturais difíceis de separar. O mais óbvio é o mais estrutural: a CazéTV foi a única emissora com direito de transmissão de 100% dos jogos, enquanto a Globo cobre cerca de 50% e o SBT tem apenas 32 partidas. Numa Copa que o brasileiro quer assistir do começo ao fim, isso já seria suficiente para atrair audiência, mas não para gerar engajamento espontâneo da forma como aconteceu.
Além da exclusividade, quais são os outros diferenciais do trabalho da CazéTV?
O que diferencia a CazéTV é a linguagem. O canal nasceu na internet, fala internet e tem na figura de Casimiro Miguel um apresentador que não se comporta como âncora de telejornal. Ele reage, ri, perde a compostura, torce junto. Esse estilo informal e participativo é exatamente o que o público jovem espera de uma transmissão ao vivo em 2026. O estudo da Timelens confirma isso: 40,2% do sentimento sobre a CazéTV é positivo, com elogios concentrados em “acesso democrático/gratuito”, “estilo mais informal e divertido” e “Casimiro como figura forte”. Há ainda um elemento de identidade: transmitir pelo YouTube, de graça, sem precisar de cabo ou assinatura, posiciona a CazéTV como a emissora do povo — o que é tanto uma percepção construída quanto uma realidade técnica.
Como o senhor avalia o alcance da CazéTV?
Em termos de alcance, os dados são impressionantes para uma plataforma digital pura. A CazéTV aparece em mais de 40% do sentimento positivo nas conversas sobre transmissões, supera a Globo em dias de menor interesse da Seleção e tem seu nome como o polo dominante da principal rivalidade do torneio (CazéTV X Globo aparece em 9,3% de todas as menções sobre emissoras). Para o marketing de influência, o dado mais relevante é este: a CazéTV não é só um canal, é uma comunidade. Casimiro tem uma base de fãs fidelíssima que defende o canal mesmo quando há problemas técnicos — o estudo mostra que 62% das menções sobre o delay da CazéTV são, na verdade, defesas bem-humoradas do público (“Dá tempo de pegar a cerveja”). Isso é capital de marca raro, que nenhuma emissora tradicional consegue comprar.
E, em termos comerciais, a CazéTV também foi bem?
Comercialmente, o modelo da CazéTV nesta Copa foi agressivo e funcionou, mas com custo reputacional claro. As bets dominam 35,8% de todas as menções a marcas associadas ao canal. A investigação do Ministério da Justiça por propaganda abusiva de apostas chegou a impulsionar o sentimento negativo da CazéTV para 39%, o maior salto entre as três emissoras. O modelo “de graça por causa das bets” está sob pressão, e esse é o principal risco comercial do canal para os próximos ciclos. Dito isso, marcas como iFood, Chevrolet e Brahma aparecem associadas à Cazé TV com sentimento positivo, o que mostra que o espaço para anunciantes além das bets existe e tende a se expandir.
A CazéTV pode fazer o mercado publicitário olhar mais para o digital?
Sim, e já está fazendo. Mas é importante não romantizar: o mercado publicitário brasileiro já vinha migrando recursos para o digital antes de a CazéTV existir. O que esta Copa faz é dar ao mercado uma prova de conceito em escala e em contexto de alto investimento emocional, o futebol. Historicamente, o argumento para manter orçamento na TV aberta era o alcance massivo e a certeza da audiência. A CazéTV demonstrou que é possível ter os dois no digital, com a vantagem adicional de dados de comportamento muito mais precisos do que o Ibope jamais ofereceu. Um anunciante que patrocinou a CazéTV nesta Copa pode saber exatamente quantas pessoas assistiram, por quanto tempo, em que momento do jogo viram o anúncio e o que fizeram depois.
Mas, no geral, a CazéTV reforçou a anunciantes pontos fortes do ambiente on-line?
O que tende a acontecer não é o abandono da TV aberta — que ainda tem alcance demográfico insubstituível em públicos mais velhos e em regiões com menor penetração de internet —, mas uma reconfiguração do mix. A pergunta deixa de ser “TV ou digital?” e passa a ser “qual o papel de cada um na jornada do consumidor?”. A CazéTV nesta Copa deu ao mercado um argumento sólido para responder essa pergunta de forma mais favorável ao digital.
A televisão perderá ainda mais público para a internet nos próximos anos?
Sim, sem dúvida. O processo, contudo, é mais gradual e segmentado do que as manchetes sugerem. A tendência estrutural é clara: as gerações que crescem hoje já não têm o hábito de ligar a TV no horário marcado para assistir a um programa. Para elas, a tela é o celular, o conteúdo é sob demanda e o algoritmo cuida da descoberta. Nesse contexto, a TV aberta perde relevância cultural continuamente.
Por que essa migração da televisão para a internet ocorre gradualmente?
O que freia essa perda é o comportamento dos públicos mais velhos, que ainda assistem à televisão de forma habitual e representam uma fatia enorme do consumo publicitário. Também há o fato de que grandes eventos ao vivo (Copa do Mundo, Olimpíadas, finais de campeonato) ainda funcionam muito bem na grade aberta, pois criam o senso de experiência coletiva que a internet imita, mas ainda não reproduz com a mesma eficiência.
A televisão vai morrer?
A pergunta certa não é “a TV vai morrer?”, mas “quando os anunciantes que dependem do público mais velho tiverem que alcançá-lo também no digital, como se reorganizarão?”. Esse ponto de inflexão está chegando. E eventos como esta Copa, com a CazéTV ocupando protagonismo no YouTube, aceleram a percepção de que ele já chegou.
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