Instituto Conhecer Brasil entrou no radar das autoridades depois de lobby de empresa ligada a ex-secretário de Dilma
Edilson Salgueiro

O ex-presidente Jair Bolsonaro ergue o braço do vereador carioca Rafael Satiê, que passa a visar a eleição para cumprir mandato em Brasília. Na imagem, os dois estão em manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo | Foto: Divulgação/Equipe Rafael Satiê
A organização não governamental (ONG) Instituto Conhecer Brasil, presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, não desembolsou recursos para a produção do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O nome da ONG entrou no radar do Ministério Público (MP) e do Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o ministro Flávio Dino mandou investigar repasses de emendas parlamentares destinados à Academia Nacional de Cultura, entidade presidida por Karina. A empresária também é presidente do Instituto Conhecer Brasil, que atua em projetos sociais e de inclusão digital, e é sócia da GoUp Entertainment, produtora responsável pelo filme sobre Bolsonaro. No despacho, Dino determinou que órgãos de controle apurem a execução dos recursos públicos e a relação das entidades comandadas por Karina com contratos e projetos financiados com verba federal.
O caso chegou ao STF por uma representação da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP). De acordo com a parlamentar, o deputado federal Mário Frias (PL-SP) destinou ao menos R$ 2 milhões em emendas parlamentares à Academia Nacional de Cultura. A entidade também aparece vinculada a cerca de R$ 2,5 milhões em emendas Pix indicadas por parlamentares do PL, incluindo Bia Kicis (DF), Marcos Pollon (MS), Carla Zambelli (SP) e Alexandre Ramagem (RJ).
Parte dos recursos investigados estava associada ao projeto da série documental Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rendem, ligado à estrutura audiovisual do grupo de Karina. De acordo com informações obtidas por Oeste, contudo, Dark Horse foi estruturado exclusivamente com capital privado e investidores internacionais. O assunto que envolve o filme em homenagem a Bolsonaro veio à tona por meio de reportagens do site Intercept Brasil.
Lobby empresarial
Antes da entrada da ONG, o WiFi Livre SP orbitava principalmente empresas privadas do setor de telecomunicações. Uma delas era a Surf Telecom, operadora já ligada a fases anteriores do programa municipal de conectividade. No edital de 2024, a Surf acabou rejeitada pela prefeitura, em razão de inconsistências apontadas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), órgão responsável pela fiscalização de contratos e serviços ligados à administração municipal.
Com o objetivo de aumentar a competitividade do edital, a prefeitura abriu espaço para entidades do terceiro setor participarem da expansão do programa. O Instituto Conhecer Brasil venceu o certame e contratou empresas especializadas para executar a parte técnica da operação. A Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda. foi uma das companhias responsáveis pela instalação, manutenção e suporte dos links de internet utilizados em favelas atendidas pelo programa.
Empresários ligados ao setor afirmam que a Surf, conhecida em Brasília pelo lobby no segmento de telecomunicações, pressionou pela descontinuidade do contrato do instituto com a prefeitura. Esse movimento envolveu tentativas de retirar a ONG de áreas estratégicas da expansão da rede comunitária por meio da cooptação da Ultra IP.
Documentos obtidos por Oeste mostram que a articulação com a Ultra IP virou caso de polícia. Em inquérito instaurado pelo 78º Distrito Policial dos Jardins, em São Paulo, a Polícia Civil relata que o Instituto Conhecer Brasil acusou a Ultra IP de interromper cerca de 800 links de internet instalados em comunidades vulneráveis atendidas pelo WiFi Livre SP. Segundo a ONG, a Ultra IP apresentou “reiterados descumprimentos”, “inconsistências técnicas e administrativas” e resistência para corrigir problemas apontados durante a execução do contrato.
Karina Ferreira da Gama relatou à Polícia Civil uma tentativa de extorsão por parte da Ultra IP, com cobrança de aproximadamente R$ 2,5 milhões. Segundo o inquérito, a empresária afirmou ter sofrido “pressões indiretas”, ameaça de exposição midiática e divulgação de informações internas do instituto se o montante não fosse pago.
As ligações do Intercept com a Surf
O conflito empresarial ganhou novos capítulos depois que o Intercept Brasil passou a publicar a série de reportagens sobre Flávio, Vorcaro e o financiamento de Dark Horse.
Um dos autores das publicações é o jornalista Paulo Motoryn, editor do site de esquerda. Ele é parente de Mauro Motoryn, atual diretor de desenvolvimento da Surf Telecom — empresa que orbitava o ecossistema do WiFi Livre SP antes da entrada do Instituto Conhecer Brasil no programa municipal de conectividade.
Mauro atua há décadas nos bastidores dos mercados de publicidade institucional, telecomunicações e comunicação política da capital federal. Durante o primeiro governo Lula, ganhou projeção nacional no setor publicitário pela proximidade com nomes centrais do escândalo do Mensalão, como o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, o ex-presidente do Banco Popular Ivan Guimarães e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Em 2008, ganhou influência em Brasília durante a disputa pelos contratos de publicidade do governo federal enquanto presidia a agência 141 Brasil Comunicação, ligada ao grupo internacional WPP. No governo Dilma Rousseff, atuou como gerente de projeto da Secretaria Nacional de Juventude.
Em entrevistas recentes, Mauro assumiu posições políticas alinhadas ao campo da esquerda. Ao site Brasil 247, por exemplo, classificou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “grande estrela” das Diretas Já. Em artigo publicado no site Congresso em Foco, disse ser militante desde a juventude, criticou a gestão Bolsonaro e defendeu políticas públicas inspiradas nos governos petistas.
Nos últimos anos, Mauro passou a atuar no setor de telecomunicações e hoje ocupa posição estratégica na Surf Telecom, operadora ligada a projetos de conectividade social, operadoras virtuais e expansão de internet em regiões periféricas.
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