Conflito atual tem semelhanças com o de 1991, mas com potencial de contenção maior de nações árabes
Eugenio Goussinsky
Tel-Aviv foi bombardeada com mísseis Scud na Primeira Guerra do Golfo, em 1991 | Foto: Reprodução/Wikimedia CommonsO que tem ocorrido neste ano no Oriente Médio é uma repetição amplificada da primeira Guerra do Golfo, em 1991. Em vez do Iraque, o protagonista é o Irã. Naquela ocasião, Israel foi alvejada por mísseis e não reagiu. Assim como têm feito os países do Golfo, recentemente atacados por forças iranianas, como Bahrein, Omã, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Catar.
“A guerra de mísseis que hoje convulsiona o Golfo representa a crise de segurança regional mais grave desde a invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990″, relata o Arab Gulf States Institute, de Washington.
Nesta guerra, mísseis balísticos, como Gadhr, Fattah1 e Emad, têm sido lançados também em alvos civis desses países, como hotéis e aeroportos, além de alvejarem infraestruturas militar e de energia. São mísseis modernos, com alcance superior a 1,5 mil quilômetros, que cobrem facilmente toda a Península Arábica. Ilustram a evolução de armamentos que, há mais de três décadas, almejavam os mesmos objetivos de hoje: causar uma guerra regional.
Houve ainda outra guerra na região, a segunda Guerra do Golfo, em 2003, depois de os Estados Unidos invadirem o Iraque com a acusação de que o governo local desenvolvia armas de destruição em massa.
Atualmente, porém, o avanço da tecnologia e da ousadia levou os países a reagirem com uma cautela muito maior. Em 2026, são pelo menos cinco nações que se contiveram e não reagiram aos ataques iranianos, para não provocar uma escalada. Em 1991, apenas Israel teve este papel.
O ex-primeiro-ministro e ex-ministro das Relações Exteriores do Catar, Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani, declarou, na rede social X, que os países do Conselho de Cooperação do Golfo “não devem ser arrastados para um confronto direto com o Irã”, embora Teerã “tenha violado a soberania dos Estados do Conselho e sido o agressor”.
“Há forças que querem que os Estados do Conselho se envolvam diretamente com o Irã”, relatou Sheikh Hamad. “Mas um choque direto entre os Estados do Conselho e o Irã, se ocorrer, esgotará os recursos de ambos os lados e dará oportunidade para que muitas forças nos controlem sob o pretexto de nos ajudar a sair da crise.”
Os ataques a Israel na Guerra do Golfo
Naqueles anos 1990, depois de ser atacado pelos EUA, em função de sua invasão do Kuwait, o Iraque do ditador Saddam Hussein lançou mísseis Scud em Israel. Aqueles ataques já antecipavam uma disputa tecnológica que se tornaria cada vez mais central nas guerras modernas: o confronto entre mísseis balísticos e sistemas de defesa antiaérea.
De um lado estavam os Scud e suas variantes, originalmente desenvolvidos pela União Soviética. Do outro, sistemas de interceptação, como o MIM-104 Patriot, criado pelos EUA e que acabaria se tornando um dos símbolos militares daquele conflito.
Não foram os primeiros equipamentos desse tipo. Eles já existiam desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mas aquela primeira Guerra do Golfo serviu como um dos primeiros cenários em que esse tipo de disputa prevaleceu, integrada já à era da tecnologia militar avançada.
Os Scud, de origem soviética, alcançavam no máximo 850 quilômetros. Mas serviram de base para o desenvolvimento do norte-coreano Nodong, que deu origem ao Shabbab 3. Já o Patriot serviu como uma referência para o avançado Iron Dome, de Israel, e suas variantes.
Naquela guerra entre EUA e Iraque, uma eventual escalada dependia de Israel. Se o país, na época governado pelo primeiro-ministro Itzhak Shamir, do Likud, respondesse, países como Arábia Saudita, Omã, Bahrein, Catar e Emirados Árabes iriam entrar na guerra contra Israel. Cidades como Tel-Aviv foram atingidas.
Cedido pelos EUA, o sistema Patriot bloqueou vários mísseis iraquianos e contribuiu para um número baixo de vítimas. Soldados norte-americanos que operavam o equipamento foram reverenciados e aplaudidos pela população israelense.
Apesar de todas as semelhanças, o cenário atual, nesse sentido, se inverteu. Os outrora opositores de Israel veem o Irã como a maior ameaça. A tecnologia e a agressividade aumentaram. Mesmo assim, há 35 anos, o cenário atual teria capacidade de gerar uma escalada que, até agora, não ocorreu. Graças à contenção, à estratégia calculada e, por que não dizer, a um grau de ética.
O atual conflito, segundo Ezzat Ibrahim, do portal egípcio Ahram Online, é um teste histórico para a segurança regional. E um aceno para um pós-guerra de integração militar e comercial entre os países da região. “A guerra rapidamente deixou de ser apenas um confronto militar e passou a ser um debate sobre o futuro da ordem regional no Oriente Médio.”
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