Em nota, o presidente do Supremo Tribunal Federal nem menciona a possibilidade de tirar o ministro da relatoria do processo do Master
Anderson Scardoelli
Cristyan Costa

Edson Fachin e Dias Toffoli, durante sessão plenária do STF | Foto: Antonio Augusto/STF
Alvo de críticas por sua ligação com personagens relacionados ao Banco Master, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou apoio público do presidente da Corte, Edson Fachin. Em nota divulgada na noite desta quinta-feira, 22, Fachin fez questão de elogiar o colega.
Sem citar diretamente o caso do Master, o presidente do STF afirmou que que Toffoli atua “na regular supervisão judicial”.
Também sem fazer menções a casos concretos, Fachin saiu em defesa do tribunal como um todo. De acordo com ele, a Corte “não se curva a ameaças ou intimidações”.
“Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de Direito”, escreveu Fachin, mas sem sinalizar quem estaria atacando o tribunal. “O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel.”
Contexto da nota

Dias Toffoli foi alvo de manifestação realizada em São Paulo I Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
A nota desta noite ocorre em meio a críticas a Toffoli, relator de processos do Master no STF. Na função, o ministro colocou as ações sob sigilo.
Investigações apontam que o Master realizou durante anos operações ilícitas, o que provocou fraude superior a R$ 20 bilhões ao sistema financeiro do Brasil. Comandada por Daniel Vorcaro, a instituição financeira foi liquidada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.
A relação de Vorcaro e Toffoli se dá para além dos autos processuais. Um resort em Ribeirão Claro (PR) que teve familiares do ministro como sócios chegou a contar com investimentos de fundos ligados ao cunhado do banqueiro. Posteriormente, o estabelecimento foi formalmente vendido a um advogado com vínculos com a empresa JBS.
Na noite desta quinta-feira, protesto com críticas a Toffoli e ao Master reuniu centenas de pessoas na cidade de São Paulo. Já no Congresso Nacional, magistrado e banco são alvo de pedidos de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito.
Apesar das críticas, a Procuradoria-Geral da República arquivou pedido de impedimento de Toffoli no caso Master. A decisão do órgão em favor do ministro do STF se deu nesta quinta-feira.
A carta de Fachin em defesa de Toffoli

Em recesso, Edson Fachin reforça que, atualmente, a presidência do Supremo é de responsabilidade de Alexandre de Moraes | Foto: Victor Piemonte/STF
Leia, a seguir, a íntegra da nota em que Fachin defende publicamente o trabalho de Toffoli no STF.
“Nota da Presidência
Adversidades não suspendem o Direito. É precisamente nos momentos de tribulações que o império da legalidade, discernimento e serenidade demonstra sua razão de ser. É com os olhos voltados para esse dever que miro fatos presentes.
As situações com impactos diretos sobre o sistema financeiro nacional exigem mesmo resposta firme, coordenada e estritamente constitucional das instituições competentes.
A Constituição da República atribui ao Banco Central do Brasil o dever jurídico de assegurar a estabilidade do sistema financeiro, a continuidade das operações bancárias essenciais, a proteção dos depositantes e a prevenção de riscos sistêmicos. Tais competências, de natureza técnica e indelegável, devem ser exercidas com plena autonomia e sem ingerências indevidas.
A atuação da Polícia Federal é igualmente indispensável, sobretudo na apuração de eventuais práticas criminosas de gestão temerária, fraude financeira, manipulação de informações, lavagem de dinheiro e outros ilícitos previstos na legislação penal e financeira.
Cabe à Procuradoria-Geral da República, no âmbito de suas atribuições constitucionais, promover a persecução penal e controlar a legalidade das investigações. O Ministério Público, como instituição permanente, exerce papel fundamental na tutela da ordem econômica e do regime jurídico de defesa dos consumidores
A seu turno, a Corte constitucional brasileira se pauta pela guarda da Constituição, pelo devido processo legal, pelo contraditório, e pela ampla defesa, cumprindo respeitar os campos de atribuições do Ministério Público e da Polícia Federal, porem, atuando na regular supervisão judicial, como vem sendo feito no âmbito dessa Suprema Corte pelo Ministro relator, DIAS TOFFOLI.
No tocante ao Supremo Tribunal Federal, registro que o Tribunal Pleno se encontra atualmente em recesso. Nesse período, matérias urgentes são apreciadas pela Presidência ou pelo Relator, nos termos regimentais. Encontra-se regularmente no exercício da Presidência o Ministro Alexandre de Moraes, Vice-Presidente desta Corte. As matérias de competência do Tribunal Pleno ou das Turmas, quando decididas no recesso, serão, oportunamente, submetidas à deliberação colegiada, com observância do devido processo constitucional, da segurança jurídica e da uniformidade decisória. A colegialidade é método.
É legítimo o exercício regular da jurisdição por parte dos membros do Tribunal no período do recesso, sem exceção. Eventuais vícios ou irregularidades alegados serão examinados nos termos regimentais e processuais. Questões tais têm rito próprio e serão apreciadas pelo colegiado com a seriedade que merecem. A Presidência não antecipa juízos, mas tampouco se furta a conduzi-los.
É induvidoso que todos se submetem à lei, inclusive a própria Corte Constitucional; nada obstante, é preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel. Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito. A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça.
O Supremo fez muito no Brasil em defesa do Estado de direito democrático; fará ainda mais. Sim, todas as instituições podem e devem ser aperfeiçoadas, isso sempre, mas jamais destruídas. Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço.
Transparência, ética, credibilidade e respeitabilidade faz bem ao Estado de direito. Este deve ser compromisso de todos nós democratas.
Brasília, 22 de janeiro de 2026.
Luiz Edson Fachin, Presidente do Supremo Tribunal Federal”
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por seu comentário.