Com artimanha tipicamente lulista, presidente avisou a ministros que pode desistir de disputar a eleição em 2026
Amanda Sampaio
É inegável que até aqui o estratagema de Lula deu certo para si mesmo | Foto: Marcelo Camargo/Agência BrasilNa mesma reunião ministerial em que anunciou que “2026 já começou”, convertendo seu governo num insolente comitê de campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também recorreu a uma de suas cartadas típicas, sobretudo em períodos pré-eleitorais: a arte de iludir. É o que afirma o jornal O Estado de S. Paulo em editorial desta segunda-feira, 27.
Na parte pública da reunião, Lula tratou de invocar mais uma vez a “defesa da democracia”, atribuindo a seu governo (ou melhor, a si próprio) a missão de liderar a resistência nacional contra a “volta ao neofascismo, ao neonazismo e ao autoritarismo”, segundo suas próprias palavras.
Já no momento fechado do encontro, o presidente fez chegar aos ministros a ideia de que seu nome poderá não estar nas urnas em 2026. “Deus no comando”, teria dito, segundo relatos, creditando a incerteza a um conjunto de variáveis, entre elas a saúde, principalmente.
De acordo com o Estadão, ao cogitar a hipótese de desistir, Lula teria mencionado ainda recentes episódios que colocaram sua vida em risco, como o problema técnico na aeronave presidencial e a cirurgia na cabeça depois de uma queda no banheiro.
“Noves fora as inevitáveis incertezas do destino, que impedem qualquer ser humano – mesmo aqueles convictos de seus poderes divinos, como Lula – de ter a mais plena segurança sobre o que fará e onde estará daqui a quase dois anos, não há dúvida de que o presidente não pensa em outra coisa senão continuar governando o Brasil e liderando a esquerda tradicional lulopetista”, afirma o jornal.
“Nesse ponto não lhe falta convicção: para Lula, não só governar é estar no palanque, como ele se sente o único que efetivamente pode salvar o Brasil do ‘neofascismo’ e do ‘neonazismo'”, diz o Estadão, que é como ele qualifica a oposição.
A reação de ministros aliados, espontânea ou calculada, foi de “preocupação”. Providencialmente, integrantes da cúpula do PT difundiram a jornalistas as razões para tanto: hoje, segundo petistas, os principais nomes que podem vir a lhe suceder não teriam condições de representar o partido na corrida eleitoral. Seria o caso dos ministros Fernando Haddad, Camilo Santana e Rui Costa.
“Essa é a costumeira artimanha de lulistas, possivelmente inspirados no próprio Lula: difunde-se uma dúvida sobre a disposição do Grande Líder; faz-se chegar à militância o nome dos eventuais substitutos; conclui-se que nenhum tem condições de conquistar corações e mentes de eleitores; e, por fim, volta-se ao essencial, isto é, Lula precisa ser o candidato”, avalia o Estadão.
Prestidigitação de Lula não é novidade
A prestidigitação lulista já ocorreu em outros tempos, mas rigorosamente nada o impediu até aqui de disputar sete eleições presidenciais, tornando-se o recordista de candidaturas na história de nossa república.
Ensaiou desistir – apenas ensaiou, sublinhe-se – em 1998, quando meses antes já parecia certa a sua derrota para um imbatível Fernando Henrique Cardoso pós-Plano Real, e em 2002, quando impôs ao PT carta branca para ele e José Dirceu atraírem alianças para além dos satélites tradicionais da esquerda.
“Lula não hesitou em ser o candidato nem mesmo quando estava claro que sua candidatura seria barrada”, afirma o jornal. “Foi o caso de 2018, ano em que o lulopetismo quis ter o seu nome na urna mesmo com Lula preso. Coube a Haddad então cumprir o papel de boneco de ventríloquo na eleição.”
“A ‘vontade de Deus’ a que Lula se referiu na reunião, portanto, parece ter muito mais a ver com seu método de fortalecer o próprio nome e manter-se como o único farol a iluminar o espectro da esquerda tradicional liderada pelo PT”, acrescenta. “É inegável que até aqui o estratagema deu certo para si mesmo. Resta saber se o demiurgo será bem-sucedido novamente.”
Há quem veja no recado uma forma de galvanizar apoios entre partidos, mas lideranças do centrão já alertaram publicamente para o fato de que, ao contrário, isso pode abrir espaço para defecções numa base já ideologicamente frágil.
“Pode também ser uma forma de colocar à prova uma providencial fragilidade dos seus substitutos, o que só revela o horizonte rarefeito na esquerda – enquanto na direita já existe uma profusão de nomes dispostos a herdar o espólio de Jair Bolsonaro (PL), à sombra da liderança de Lula poucos emergem para valer”, conclui o texto. “Assim caminha o lulopetismo.”
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