Die Welt questiona se o Brasil ainda é um Estado de Direito e critica atuação do STF contra adversários do petista
Mateus Conte
O presidente Lula (à esq.) e o ministro do STF Alexandre de Moraes (à dir.), durante entrega da Grã-Cruz, no Itamaraty - 21/11/2023 | Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo
O jornal alemão Die Welt acusou, nesta quinta-feira, 29, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de transformar o Judiciário brasileiro em um instrumento de proteção de sua base política. Em artigo intitulado O Brasil ainda é um Estado de Direito?, o correspondente Tobias Käufer criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio.
O jornalista questionou as medidas judiciais adotadas contra Flávio depois da derrota eleitoral. No domingo 25, a Polícia Federal pediu ao STF a apreensão dos passaportes do senador e sua proibição de deixar o país. A solicitação ocorreu no âmbito de uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Na segunda-feira 26, o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos documentos e proibiu Flávio de sair do Brasil. O senador descumpriu a ordem e desembarcou em Miami, nos Estados Unidos, na quarta-feira 28, acompanhado da família.
O senador Flávio Bolsonaro desembarca em um aeroporto privativo em Miami, nos EUA | Foto: Eva Marie Uzcategui/ReutersKäufer criticou a rapidez da atuação judicial contra Flávio. “Parecia que a Justiça brasileira, no centro de acusações de corrupção, estava apenas esperando para iniciar uma campanha de vingança contra o rival de Lula”, escreveu. Ele ainda destacou que alguns ministros do STF poderiam enfrentar processos de impeachment caso Flávio tivesse vencido a eleição.
O jornalista também criticou a resposta de Lula à ida do adversário para os Estados Unidos. Dois dias depois da vitória eleitoral, Lula afirmou que “quem não deve, não teme”. Para o correspondente, a declaração “soou como uma ordem de serviço”.
O Judiciário sob Lula
Para sustentar suas críticas, Käufer reuniu episódios que, segundo ele, abalaram a confiança dos brasileiros no Judiciário. Entre eles, a influência do PT no STF: desde 2003, o partido indicou 15 dos 18 ministros nomeados no período. “É possível escolher os juízes de forma equilibrada ou instrumentalizá-los politicamente”, escreveu.
O correspondente apontou ainda uma diferença no tratamento dado pela imprensa internacional às nomeações. “Quando Bolsonaro indicou um juiz evangélico para o tribunal, houve grande indignação na mídia internacional”, afirmou, em referência a André Mendonça. “Quando Lula elevou seu advogado pessoal e um ministro de seu gabinete aos mais altos cargos judiciais, houve indiferença.”
O artigo citou ainda a Transparência Internacional, investigada por ordem do ministro Dias Toffoli em 2024 por sua atuação em acordos de leniência da Lava Jato. Dois anos depois, em janeiro de 2026, a organização acusou o governo Lula de intimidação, depois de a Casa Civil questionar sua credibilidade ao responder a críticas sobre obras federais.
As críticas se estenderam a Moraes, que autorizou medidas capazes de identificar fontes do jornalista Luís Pablo, autor de reportagens sobre o uso de veículos oficiais por familiares de Flávio Dino. A Polícia Federal havia alertado sobre o sigilo jornalístico, mas Moraes alegou suspeita de perseguição. O Die Welt apresentou o episódio como ameaça à liberdade de imprensa.
O jornal também citou a libertação de políticos condenados por corrupção e criticou o asilo concedido pelo Brasil a Nadine Heredia, ex-primeira-dama do Peru, condenada a 15 anos de prisão. Segundo Käufer, a Justiça brasileira não demonstrou interesse nas informações que ela poderia fornecer sobre o escândalo da Odebrecht.

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