Manifestações contra as condições de ensino e o custo de vida reuniram até 800 mil pessoas e provocaram cerca de 2 mil prisões
Isabela Jordão
A França enfrenta uma das maiores ondas de protestos dos últimos anos, com manifestações que reuniram até 800 mil pessoas no fim de semana, provocaram cerca de 2 mil prisões e deixaram um rastro de destruição em diferentes cidades.
Iniciado por estudantes insatisfeitos com as condições de ensino, o movimento incorporou sindicatos, agricultores e grupos de esquerda. A crise também ampliou a disputa política e fortaleceu a posição da nacionalista Marine Le Pen na corrida presidencial.
Segundo o Ministério do Interior francês, mais de meio milhão de pessoas participaram de aproximadamente 110 marchas no último sábado, 17. A Confederação Geral do Trabalho, um dos principais sindicatos do país, estimou a presença de 800 mil manifestantes.
Manifestações tomaram conta da França em outubro | Foto: Instagram/Union SolidairesEmbora algumas das mobilizações tenham ocorrido de forma pacífica, grupos violentos depredaram cerca de 1,5 mil estabelecimentos comerciais e atacaram prédios públicos.
Em Limoges, no centro do país, um incêndio criminoso destruiu grande parte da prefeitura. Em Marselha, manifestantes mascarados invadiram um edifício governamental e derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa.
A mobilização começou com estudantes do ensino médio, que denunciam problemas como salas superlotadas, infraestrutura precária, falta de professores e funcionários e insuficiência de recursos para as escolas. Os manifestantes também criticam os critérios de admissão ao ensino superior, considerados por eles excessivamente seletivos.
O movimento ganhou dimensão nacional com a adesão de sindicatos e outros grupos insatisfeitos com a situação econômica. O aumento dos preços dos combustíveis, atribuído em parte aos efeitos da guerra com o Irã, e a elevação dos custos de produção agrícola ampliaram o alcance das manifestações.
Grupos ligados ao movimento dos coletes amarelos, que mobilizou franceses há quase uma década contra os preços dos combustíveis e outras medidas econômicas, também aderiram aos apelos por novos protestos.
A reação policial se tornou outro foco de tensão. Promotores e um órgão de fiscalização das forças de segurança investigam pelo menos 34 casos de possíveis abusos durante as manifestações. Entre os episódios relatados estão ferimentos graves em adolescentes atingidos por granadas utilizadas pela polícia.
Manifestantes levantam bandeiras da Palestina e da Argélia durante protesto na França | Foto: Reprodução/XA violência e a extensão dos danos agravaram a pressão sobre o governo, que tenta aprovar um Orçamento de austeridade em meio ao descontentamento popular. A combinação de restrições fiscais, insatisfação com os serviços públicos e aumento do custo de vida ampliou a crise política na segunda maior economia da União Europeia.
Primeiro ministro da França e líder esquerdista trocam acusações
A disputa sobre a responsabilidade pelos distúrbios passou a ocupar o centro do debate político. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu acusou integrantes da esquerda radical de estimularem a desconfiança em relação à polícia e afirmou que parte dos manifestantes violentos pertencia à chamada “ultraesquerda”.
O França Insubmissa, partido liderado por Jean-Luc Mélenchon, rejeitou as acusações. O dirigente responsabilizou o governo pela escalada dos conflitos e criticou a condução das contas públicas.
“Responsável pelo caos, devido à incompetência ou a uma estratégia desesperada para criar um partido da ordem que fizesse as pessoas esquecerem seu fracasso nas finanças públicas”, escreveu Mélenchon nas redes sociais, ao se referir a Lecornu. O primeiro-ministro não respondeu publicamente à acusação, segundo as informações disponíveis.
A crise também oferece espaço para Marine Le Pen, líder nacionalista, que busca chegar à Presidência. A insatisfação com o governo e a preocupação com a situação econômica podem favorecer seu discurso de oposição ao establishment político francês.
A disputa ocorre em um ambiente de desgaste do presidente Emmanuel Macron, impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo. Com o governo pressionado pela necessidade de equilibrar as contas públicas e conter os protestos, a crise social pode influenciar o cenário eleitoral da próxima primavera europeia.

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