Óleo feito com a planta derivada da maconha ajuda a reduzir sintomas
Por Franciely Gomes

Oléo com Cannabis é usado para diversos tratamentos - Foto: Ilustrativa | Magnific
Nem só de medicamentos tarja preta vivem os pacientes que tratam ansiedade e depressão. Óleos compostos com canabidiol (CBD), substância presente na planta Cannabis, conhecida popularmente como maconha, têm sido prescritos por médicos e terapeutas para o auxílio dos sintomas causados pelos transtornos mentais.
De acordo com dados divulgados no Anuário da Cannabis Medicinal da Kaya Mind, empresa especializada em inteligência e análise do mercado canábico, mais de 873 mil pacientes realizaram o uso da planta de maneira medicinal em 2025, a fim de tratar problemas diversos.
Juracy do Amor foi um destes pacientes apontados no relatório. Em entrevista à reportagem do portal A Tarde, ele contou que utilizou o medicamento para tratar o transtorno de ansiedade, após prescrição de um médico.
“Busquei tratamento psiquiátrico, tomei todos esses remédios da categoria alopática. Mas eu não tive sucesso, porque os remédios me deixavam muito comprimido, sem vontade de fazer muita coisa. Não ficava nem muito feliz, nem muito triste, ficava naquele meio termo. Também perdi a libido e aumentei a compulsão por comida”, disse.
“E aí quando eu comecei a usar o óleo de CBD e posteriormente o óleo de CBD junto com o THC, o Full Spectrum, a minha ansiedade foi quase zero. Fiquei muito bem com o óleo e me ajudou muito no processo depressivo, além de aumentar a minha autoestima”, completou.
O educador social também afirmou que sentiu uma melhora expressiva na qualidade do sono após o início do tratamento. “A cannabis medicinal não só me auxilia no meu dia a dia, diminuindo o meu estresse e minha ansiedade, mas me ajuda a dormir muito e a identificar meus gatilhos psicológicos”.
“Melhorei muito em relação ao período anterior antes do tratamento. Tanto na minha qualidade de vida, quanto na minha relação com minha filha, com amigos e até na relação com o trabalho”, reforçou.
Como funciona a prescrição do medicamento?
Desafios e avanços na pesquisa e produção de Cannabis Medicinal no Brasil - Foto: Ilustrativa | MagnificNem todos podem ter acesso direto ao medicamento à base de cannabis. Para iniciar o tratamento de maneira legalizada e com segurança, é necessário passar por uma avaliação médica e psicológica antes.
De acordo com Mariane Ventura, médica que prescreve os óleos e outros medicamentos com CBD, o paciente responde um questionário, onde informa todas as suas questões de saúde antes da indicação.
“É uma avaliação médica geral, onde se entende todo o quadro de saúde daquele indivíduo, se ele tem outros tipos de doenças, como uma hipertensão, diabetes, se faz uso de medicações e como é esse histórico de ansiedade e depressão”, explicou.
“Nesse apanhado clínico tentamos entender há quanto tempo ele tem esse transtorno e se tiveram momentos de gravidade, como internamento ou tentativa de suicídio. Além de verificar como está essa ansiedade ou depressão no momento. E a partir daí a gente indica ou não tratamento com a Cannabis”.
A profissional de saúde também destacou que a indicação é feita somente para aqueles que tentaram diversos outros tratamentos, mas não obtiveram o sucesso esperado. No entanto, alguns casos de ansiedade leve também entram na lista, devido às apostas de terapias não medicamentosas.
“Com o diagnóstico exato, podemos começar o tratamento com a Cannabis em paralelo com uma psicoterapia, mudança de estilo de vida, atividade física, alimentação e regulagem do sono”, completou.
Mudança de vida
Além do uso diário do óleo de CBD, que começa em doses baixas e vai evoluindo de acordo com a necessidade do paciente, é imprescindível o acompanhamento psicológico e psiquiátrico ao longo do tratamento.
Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, a psicóloga Taciane Rodrigues Goto contou ao A TARDE que é possível notar algumas mudanças significativas na vida dos pacientes, devido à redução de sintomas ao longo dos meses.
No entanto, a resposta à substância é individual e pode demorar mais em algumas pessoas. “Na clínica baseada em evidências, não existe uma fórmula universal nem medicação que sirva para todos os pacientes”, destacou.
“Enquanto o canabidiol (CBD) purificado ou fitoterápicos padronizados podem reduzir a ansiedade somática em alguns indivíduos — facilitando a presença e o engajamento na terapia —, em outros eles podem ter efeito nulo ou causar reações adversas”, explicou.
“Diante disso, cabe aos profissionais de saúde mental conduzir uma psicoeducação clara e atualizada sobre os medicamentos modernos: esclarecer que o objetivo do tratamento não é sedar ou prostrar o indivíduo, mas sim restaurar sua funcionalidade diária, sua autonomia e sua qualidade de vida”, completou.
Acesso ao tratamento ainda não é democrático
CBD pode estar presente em diversos tipos de tratamentos - Foto: Ilustrativa | MagnificAtualmente, há alguns meios facilitados de conseguir prescrições para os medicamentos da cannabis. Um deles é a Click Cannabis, empresa que conecta pacientes com médicos que emitem receitas de acordo com a necessidade de cada tratamento por um valor de R$ 40 por consulta.
“Os tratamentos são personalizados, e durante a consulta, o médico avaliará o histórico de saúde e as necessidades específicas do paciente para prescrever a forma mais adequada de uso, que pode incluir óleos, cremes ou jujubas, evitando a necessidade de fumar”, informou um porta-voz da empresa.
No entanto, o valor dos medicamentos ainda não cabem no orçamento de todos que precisam. Produtos regulamentados pela Anvisa com concentrações mais baixas (como 20 mg/mL a 50 mg/mL) variam de R$ 130,00 a R$ 530,00, enquanto as versões de altíssima concentração (como 200 mg/mL) podem passar de R$ 1.800,00.
Em alguns casos, o paciente pode importar o produto de marcas internacionais com autorização da Anvisa, que é garantida desde 2015. O preço costuma ser proporcional à quantidade total de miligramas (mg) de canabidiol contida dentro do frasco, e não ao volume em mililitros.
Juraci do Amor confessou que busca associações para conseguir custear o tratamento. “Hoje em dia eu busco as associações que me ajudam e eu consigo encontrar um medicamento mais em conta. Mas ainda assim tem um custo relevante”, disse.
“Atualmente também produzo o meu próprio medicamento, com o cultivo caseiro, através de um habeas corpus de cultivo e muita pesquisa e estudo sobre o tema. Foi importante também buscar essa essa segurança jurídica para para manter a segurança do meu tratamento e manter a qualidade da minha vida”.
Presidente da Associação para pesquisa e desenvolvimento da Cannabis Medicinal no Brasil (CANNAB), Leandro Stelitano reforçou que o acesso ao tratamento deve ser cada vez mais democratizado.
“A Anvisa vai lançar um edital, onde as associações vão se inscrever para ter autorização para o cultivo. Hoje a gente já tem mais de 10 marcas de óleo vendendo nas farmácias, mas continuam ainda no modelo de importação, o que é muito caro”, disparou.
“O que a gente precisa é ter uma legislação no Brasil através do executivo ou do legislativo. Porque até hoje os avanços que temos são apenas através da Anvisa. Então, é necessário uma lei para poder regulamentar de fato toda a cadeia, não só a cadeia medicinal, mas como a cadeia produtiva da cannabis no país”, finalizou.
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