Montanha de roupas revela impacto do consumo e do descarte global
Por Isabela Cardoso

Foto: Reprodução | Nicolás Vargas | BBC
Uma enorme formação no Deserto do Atacama, no norte do Chile, passou a chamar atenção até em imagens de satélite. À primeira vista, ela pode parecer uma elevação natural, mas o que realmente forma esse "gigante" revela um dos maiores problemas ambientais ligados à indústria da moda no mundo.
O enorme volume visto do espaço não é uma montanha de pedra nem uma formação geológica. Trata-se de um gigantesco acúmulo de roupas descartadas que cresce há cerca de 15 anos nos arredores de Alto Hospicio, cidade localizada na região de Tarapacá.
Segundo autoridades locais, a área ocupada pelos resíduos já alcança aproximadamente 300 hectares, o equivalente a cerca de 420 campos de futebol. O local se tornou um dos maiores símbolos do impacto ambiental provocado pelo descarte de roupas no planeta.
Como milhares de toneladas de roupas chegam ao deserto
O problema começa muito antes de as peças chegarem ao Chile. Todos os anos, aproximadamente 59 mil toneladas de roupas usadas desembarcam no país, principalmente vindas dos Estados Unidos e da Europa.
Muitas foram originalmente doadas para instituições beneficentes, mas entram posteriormente no comércio internacional de roupas de segunda mão. Grande parte dessas cargas chega pela Zona Franca de Iquique (Zofri), um importante centro de distribuição para diversos países da América do Sul.
Após uma seleção, as melhores peças seguem para revenda. O restante permanece sem destino comercial.
Por que tanta roupa acaba abandonada
Nem todas as roupas encontram compradores. Segundo autoridades ambientais da região, cerca de 40 mil toneladas acabam descartadas todos os anos.
Foto: Reprodução | Nicolás Vargas | BBCComo o Chile não possui estrutura suficiente para tratar esse volume de resíduos têxteis, parte do material acaba sendo abandonada ilegalmente em áreas isoladas do deserto.
A fiscalização limitada também contribui para que os depósitos clandestinos continuem crescendo.
Impacto vai muito além da paisagem
Grande parte das peças é fabricada com poliéster, uma fibra sintética derivada do petróleo que pode levar aproximadamente 200 anos para se decompor. Durante esse período, o material libera microplásticos que contaminam o ambiente.
Outro problema frequente são os incêndios registrados nos lixões clandestinos. As queimadas liberam fumaça tóxica e podem durar vários dias, afetando a qualidade do ar nas comunidades próximas.
Famílias convivem diariamente com o problema
Nas áreas próximas aos depósitos vivem famílias em situação de vulnerabilidade, muitas delas formadas por imigrantes.
Algumas pessoas entram nas pilhas de roupas em busca de peças para vestir ou vender, permanecendo expostas à fumaça, aos resíduos e aos riscos provocados pelo descarte irregular.
Segundo autoridades locais, o problema ambiental também acabou se tornando um desafio social.
O que explica esse cenário?
Especialistas relacionam o crescimento desses depósitos ao avanço da fast fashion, modelo de produção baseado em coleções renovadas rapidamente e roupas vendidas a preços baixos.
Com o aumento do consumo, cresce também o descarte. Mesmo quando as peças são doadas, muitas acabam circulando pelo mercado internacional sem encontrar um novo comprador.
O resultado é um volume de resíduos muito superior à capacidade de reaproveitamento.
Há alguma solução?
O governo chileno discute medidas para reduzir o problema. Entre elas estão um plano para eliminar os lixões clandestinos e uma proposta para incluir as roupas usadas na Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor, tornando importadores responsáveis pela destinação correta dos resíduos.
Enquanto essas iniciativas ainda avançam, novas cargas continuam chegando ao país. O "gigante" que hoje chama atenção até do espaço é, na verdade, o retrato de uma cadeia global de consumo e descarte que continua crescendo.
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