Luiz Carlos Hauly explica a Oeste os motivos que o levaram a protocolar projeto de lei no Congresso para debater a questão, depois da eliminação na Copa do Mundo
Eugenio Goussinsky
Seleção Brasileira entra em novo ciclo para a Copa do Mundo de 2030 | Foto: Facebook/CBF
A preocupação em relação ao futuro da Seleção Brasileira chegou ao Congresso Nacional. Agora, busca-se, por meio de um projeto de lei, solucionar questões que têm relação com a má condução do futebol nos últimos anos. No dia 8, três dias depois da eliminação da equipe pela Noruega, o deputado federal Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR) protocolou um polêmico projeto, pelo qual apenas jogadores que atuem no Brasil poderão ser convocados para competir pela Seleção Brasileira.
Além dos atletas, segundo o PL n° 3.582/2026, todos os integrantes da comissão técnica, inclusive o técnico principal da Seleção, também deverão atuar por clubes brasileiros em seus registros profissionais para estar aptos a disputar competições internacionais. A exceção é para amistosos e jogos promocionais, mediante acerto com o órgão que realiza o evento. A proposta vale também para as seleções femininas e para todas as categorias de base.
A proposta também inclui a proibição de entidades nacionais, regionais e locais do futebol realizarem propaganda de bets em produtos, equipes e competições organizadas em território nacional.
Sobre a ausência de atletas do Exterior, o deputado Hauly deu voz a uma discussão que se espalhava pelo país, nas esquinas e nos bares. Essa ideia sempre veio como fruto da indignação popular diante do que parece apatia do jogador brasileiro em momentos decisivos pela Seleção.
Repetem-se, com isso, máximas de que não há o devido empenho deles em função dos salários milionários e da posição que já ocupam em clubes europeus. Hauly, porém, abre a discussão para outro aspecto: o de que, desta maneira, o desenvolvimento do futebol nacional tem sido prejudicado.
A medida apresentada necessita agora passar por despacho da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados. Deverá passar ainda pelas comissões temáticas. Caso seja aprovada pelo plenário da Câmara, seguirá para análise do Senado Federal e, posteriormente, para sanção presidencial.
Trata-se de uma ideia utópica, cuja concretização é extremamente improvável. Na hipótese de que um dia seja aprovada, a Seleção Brasileira voltará aos velhos tempos em que jogar fora do país era um empecilho.
Na Copa de 1958, por exemplo, essa era a realidade. O ponta-direita Julinho Botelho, da Fiorentina, afirmou que não se sentia à vontade em vestir a camisa do Brasil, ao atuar na Itália. O argumento foi que seria uma injustiça a sua presença em lugar de alguém que “rala” no Brasil. Por causa disso, Garrincha, que era a terceira opção depois de Joel, foi convocado. Confira a entrevista do deputado Hauly para Oeste, sobre o tema.
O que levou o senhor a apresentar o projeto?
O primeiro fundamento é econômico. Os clubes brasileiros estão, em grande parte, endividados, empobrecidos e com dificuldades para manter seus principais talentos. Enquanto isso, os grandes clubes europeus alcançam valores de mercado várias vezes superiores aos dos maiores clubes brasileiros. Quando a Seleção privilegia sistematicamente jogadores vinculados a clubes estrangeiros, ela também valoriza as marcas, os campeonatos, os patrocinadores e os ativos econômicos desses clubes. O Brasil forma o atleta, muitas vezes desde criança, mas o principal retorno esportivo e comercial acaba ocorrendo no exterior.
A questão dos resultados também influenciou?
Sim, porque, além disso, o Brasil não conquista uma Copa do Mundo desde 2002. Foram seis Copas consecutivas sem título, com repetição de erros de organização, preparação, escolha de treinadores, convocação e modelo de jogo. Essa sequência prejudicou o prestígio da Seleção, a valorização dos atletas, a força econômica dos clubes e o interesse do público pelo futebol nacional. Meu projeto foi apresentado para romper essa inércia e obrigar o país a discutir uma mudança de modelo.
A proposta não se choca com a Constituição, com a autonomia da CBF ou com a liberdade profissional?
O projeto não impede nenhum atleta de trabalhar no Exterior. O jogador permanece livre para atuar no clube e no país que escolher. A proposta estabelece um critério para a representação oficial do Brasil por sua Seleção. A Constituição assegura autonomia às entidades esportivas, mas essa autonomia não é absoluta. O Congresso já legislou sobre direitos dos atletas, contratos, clubes-empresa, incentivos fiscais, integridade esportiva, segurança, apostas e publicidade. A constitucionalidade será examinada durante a tramitação. Esse é precisamente o papel do Parlamento: discutir, ouvir especialistas, aperfeiçoar a redação e encontrar uma solução juridicamente segura para um problema de interesse nacional.
Por que atuar no Exterior pode interferir negativamente no desempenho da Seleção?
Não afirmo que o atleta perde qualidade individual ao jogar fora. O problema está no conjunto. Os jogadores ficam espalhados por diferentes países, calendários, culturas esportivas e modelos táticos. Reúnem-se por poucos dias e precisam formar uma equipe nacional sem convivência suficiente, sem identidade consolidada e, muitas vezes, reproduzindo padrões europeus em vez de desenvolver o estilo brasileiro. Há também uma consequência econômica: a convocação valoriza o atleta, o clube ao qual ele pertence, seus patrocinadores e o campeonato em que atua. Quando cerca de 80% da Seleção pertence a clubes estrangeiros, uma parcela significativa dessa valorização fica fora do Brasil.
Qual é a importância da Seleção Brasileira para o futebol e para o país?
A Seleção é patrimônio esportivo, cultural, econômico e afetivo do Brasil. Uma Seleção vitoriosa valoriza os clubes brasileiros; os campeonatos nacionais; os atletas e treinadores; as categorias de base; os patrocínios; as transmissões; a presença do público nos estádios; toda a cadeia econômica do esporte. Da mesma forma, seis derrotas consecutivas em Copas produzem perda de prestígio, redução da autoestima nacional e enfraquecimento econômico do futebol brasileiro. O Brasil tem cerca de 17 mil jogadores profissionais registrados e dezenas de milhões de praticantes. A Seleção deve representar e estimular esse enorme patrimônio humano e esportivo.
Questões políticas estão interferindo na CBF, especialmente em relação ao ministro Gilmar Mendes?
Não conheço o atual presidente da CBF, não conhecia o anterior e não tenho relação com o ministro Gilmar Mendes nesse assunto. Minha crítica não é pessoal nem partidária. Meu foco são os resultados esportivos, administrativos e econômicos da CBF ao longo dos últimos 24 anos.
O que mudou desde a saída de Ednaldo Rodrigues?
Não tenho elementos para avaliar pessoas ou relações internas da entidade. A questão fundamental é saber se mudou o modelo. Se a CBF continuar repetindo os mesmos critérios de organização, escolha de técnicos, preparação e convocação que vêm fracassando há seis Copas, a simples troca de presidente não produzirá o resultado de que o Brasil precisa. O problema é estrutural, não pessoal.
Qual é a relação de Samir Xaud com Gilmar Mendes e até que ponto ele tem autonomia?
Não conheço Samir Xaud e não tenho informações pessoais sobre sua relação com o ministro. Cabe ao presidente da CBF demonstrar sua autonomia por meio dos atos de gestão, da transparência, dos resultados e da disposição para reformar profundamente o futebol brasileiro.
Por que Samir Xaud foi escolhido para a presidência?
Não participei da escolha e não tenho informações internas sobre o processo. Minha preocupação não é saber quem articulou determinada candidatura. Quero saber quais mudanças serão realizadas para recuperar a Seleção, fortalecer os clubes brasileiros, combater a influência nociva das apostas e devolver competitividade ao nosso futebol.
Como o Congresso pode atuar?
O Congresso pode promover audiências públicas; convocar dirigentes e especialistas; solicitar informações; investigar contratos e conflitos de interesse; legislar sobre governança, integridade e transparência; disciplinar publicidade e patrocínio de bets; proteger atletas, torcedores, crianças e consumidores e criar uma CPI, caso sejam reunidas as assinaturas e os fatos determinados exigidos pela Constituição.
Em relação às convocações, de que maneira o Congresso poderia participar desse novo ciclo?
O Congresso pode fazer um acordo com a CBF e modular a participação de atletas que atuam no Brasil e no exterior, mas com maioria de jogadores que atuam no Brasil. A CBF é uma entidade privada, mas administra uma atividade de enorme interesse público e se relaciona com clubes que utilizam estádios públicos, recebem incentivos, renegociam dívidas tributárias e mantêm diversas relações com o poder público.
Que providências os deputados podem tomar e o que o senhor está fazendo?
Apresentei o PL nº 3.582/2026 para iniciar esse debate. A proposta estabelece critérios para a convocação das seleções brasileiras e proíbe contratos de patrocínio, publicidade e exposição comercial de empresas de apostas em entidades esportivas. Também considero necessária uma investigação parlamentar sobre a influência econômica das bets no futebol; os contratos de patrocínio; o aliciamento de atletas; as denúncias de manipulação de cartões, pênaltis e outros eventos das partidas e a atuação dos mecanismos de controle da CBF e das entidades esportivas. É fundamental, porém, trabalhar com fatos, documentos, denúncias formalizadas e investigações oficiais, sem condenações antecipadas.
Uma solução intermediária é possível?
Sim. O projeto abriu a discussão, mas a tramitação pode produzir uma solução negociada. Uma alternativa seria estabelecer uma composição com, por exemplo: 70% dos convocados que atuem em clubes brasileiros; 30% com atuação no exterior. Esse modelo valorizaria o futebol nacional e, ao mesmo tempo, permitiria a convocação de brasileiros de destaque mundial, como Vinícius Júnior e outros atletas excepcionais. O importante é não manter o sistema atual como se seis Copas sem título fossem um resultado aceitável.
No que o senhor se baseia para argumentar que, com um time formado por jogadores que atuam no país, os resultados podem ser melhores?
Por meio de dados históricos. Nas cinco Copas conquistadas, somente em 2002 a maioria atuava fora. Em 1958, 1962 e 1970: 100% dos convocados atuavam no Brasil; em 1994, 16 no Brasil e seis no Exterior; e em 2002, três no Brasil e 20 no Exterior. Já nas seis Copas sem título, de 2006 a 2026, 23 jogadores atuavam no Brasil e 121 atuavam no Exterior. Esses números não são, isoladamente, a explicação de todas as derrotas. Mas mostram uma mudança profunda no modelo e justificam plenamente uma revisão dos critérios adotados pela CBF.
O senhor vai encontrar muita resistência a esta proposta. Como vê essa situação?
Não faço acusações pessoais contra dirigentes, ministros ou técnicos. Avalio resultados: há 24 anos o Brasil não conquista a Copa e repete um modelo que não funcionou. Quem rejeita a minha proposta tem todo o direito de discordar, mas precisa apresentar uma alternativa concreta. O que não considero aceitável é defender a continuidade do mesmo sistema, com os mesmos erros e sem perspectiva de mudança.
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