Senador procurou o relator do caso Master para explicar vínculos com empresários investigados
Isabela Jordão

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), foi alvo de uma operação da PF na manhã de 18 de junho | Foto: Carlos Moura/Agência Senado
O senador Jaques Wagner (PT-BA) procurou o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator da investigação sobre o Banco Master, para apresentar explicações sobre sua relação com o empresário Augusto Lima e com o banqueiro Daniel Vorcaro cerca de uma semana antes de ser alvo de uma operação da Polícia Federal (PF).
A iniciativa ocorreu quando o pedido de busca e apreensão contra o parlamentar já estava em tramitação no Supremo e, segundo investigadores, provocou estranhamento, porque a ofensiva policial já estava em fase final de preparação. As informações são da coluna de Malu Gaspar no jornal O Globo.
Na audiência, Wagner afirmou que não havia irregularidades em sua relação pessoal com os empresários nem nos contratos firmados por sua nora, Bonnie de Bonilha, com empresas ligadas ao ecossistema de Vorcaro. O senador também apresentou sua versão sobre a implantação do Credcesta na Bahia, modalidade de crédito consignado operada pelo Banco Master, repetindo argumentos que já havia exposto em entrevistas.
O ministro do STF e relator do caso Master, André Mendonça | Foto: Andressa Anholete/STFQuando o encontro ocorreu, a representação da PF que solicitava autorização para as buscas já havia sido assinada. O documento tem data de 10 de junho. Um dia antes, em 9 de junho, um vídeo divulgado por uma repórter mostrou quando Wagner conversa reservadamente com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, nos bastidores de um evento da Presidência da República, no Palácio do Planalto.
As imagens registram o momento em que o senador gesticula enquanto o delegado o escuta, mas não revelam o conteúdo da conversa. Na ocasião, nem Wagner nem Rodrigues comentaram o episódio.
As buscas foram realizadas em 18 de junho na residência do senador, em Salvador, e no hotel onde ele mora em Brasília. Na semana seguinte, Wagner deixou a liderança do governo no Senado, em decisão tomada depois de uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Questionado sobre o motivo de ter solicitado audiência com Mendonça poucos dias antes da operação, o senador preferiu não comentar.

Imagem de prédio em que Jaques Wagner mora | Foto: Divulgação
Durante a ação da PF, foram apreendidos US$ 55 mil e € 33 mil, além de documentos e do telefone celular do parlamentar. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Wagner afirmou que o dinheiro correspondia a diárias acumuladas ao longo dos anos de mandato em viagens internacionais e que os valores estavam guardados em envelopes do Senado.
Segundo a investigação, porém, não foram localizados esses envelopes nos endereços vistoriados, e a quantia apreendida supera ligeiramente o total recebido pelo senador em diárias desde 2019.
Jaques Wagner tratava com Vorcaro por meio de Augusto Lima
Na decisão que autorizou a operação, André Mendonça afirmou que Augusto Lima “atuou como canal de interlocução” entre Daniel Vorcaro e Jaques Wagner em temas considerados estratégicos para o Master.
Entre os assuntos citados estão o rating da instituição, sua estrutura acionária, a CPI do Banco Master e a tentativa de venda do banco ao Banco Regional de Brasília, operação barrada pelo Banco Central em setembro do ano passado.
Augusto Lima teria sido o “canal de interlocução” entre Daniel Vorcaro e Jaques Wagner | Foto: Paulo Mocofaya/Agência ALBADe acordo com a PF, a relação entre Wagner e Augusto Lima seria “marcada por elevado grau de confiança pessoal, circunstância que, em tese, teria criado ambiente propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa de interesses privados do Banco Master”.
A investigação também recuperou episódios anteriores que envolvem os dois. Em 2018, Lima articulou com Wagner, então secretário da Fazenda da Bahia, a privatização da Empresa Baiana de Alimentos.
Como o primeiro leilão não atraiu interessados, o empresário sugeriu incluir no edital um cartão de benefícios consignado. A iniciativa deu origem ao Credcesta, produto que mais tarde passou a integrar a carteira do Banco Master.
Credcesta foi um dos negócios mais lucrativos do Master | Foto: Divulgação/CredcestaSegundo a PF, há indícios de que Wagner recebeu pagamentos do banco por meio da empresa de sua nora, utilizou com frequência aeronaves particulares de Daniel Vorcaro e recebeu de Augusto Lima um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões.
Depois da operação, o senador reconheceu que o imóvel foi adquirido por Lima, mas afirmou que a unidade seria destinada à sua filha e que pretendia ressarcir o empresário futuramente.
A investigação revela ainda que Augusto Lima presenteou familiares de Wagner com ingressos para dois shows da cantora norte-americana Taylor Swift, nos Estados Unidos e em São Paulo, em 2023. Em uma das ocasiões, os bilhetes custaram R$ 63,3 mil, segundo a PF.
O imóvel citado na investigação está em construção e fica no Horto Florestal, uma das áreas mais nobres de Salvador | Foto: Reprodução/Moura DoubexEm entrevista à Folha de S.Paulo, Wagner admitiu ter recebido os ingressos e minimizou o episódio. “Estão achando que ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Se ele me deu dois ingressos achando que por conta disso ia conseguir comigo alguma vantagem, se enganou do freguês”.
Sobre o apartamento, o senador declarou: “A pergunta que cabe é a seguinte: por que você pediria para reservar um apartamento num prédio em construção se fosse para corrupção? Por que eu não ia pegar um apartamento novo pronto? Eu digo: ‘não tenho condições de comprar, ela vai ter que vender o apartamento dela para eu ajudar no resto e financiar uma parte. Eu só quero que garanta aquilo lá’. Foi isso”.
Wagner também criticou a condução da operação policial. Classificou a ação como uma “patacoada” e afirmou que houve “espetacularização” da investigação em razão da divulgação de fotografias do dinheiro e dos relógios apreendidos durante o cumprimento dos mandados.
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