Atual vice-prefeito Roberto Ladijanski, nascido no Rio, conta a Oeste as mudanças na gestão depois de 7 de outubro e com o aumento do antissemitismo
Eugenio Goussinsky

Roberto Ladijanski costuma vir ao Rio de Janeiro | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A orla de Tel-Aviv, acompanhada pela Avenida Herbert Samuel, tem um aroma arenoso, de tempos bíblicos. Na orla da zona sul do Rio de Janeiro, da Atlântica à Delfim Moreira, a maresia carrega um perfume de vegetação. Lá, o batuque e as lembranças da bossa nova se misturam ao quebrar das ondas. São detalhes sutis, mas determinantes, que revelam muito da característica de uma cidade e de um país, já enraizados na mente e na alma do brasileiro Roberto Ladijanski.
Roberto, de 55 anos, nasceu no Méier, bairro da zona norte do Rio. “Minha infância foi maravilhosa”, diz. “Passei muito tempo na praia, acampando com meus pais e amigos nas áreas naturais da zona sudoeste da cidade, que nos anos 1980 se tornaram a Barra da Tijuca, e assistindo a jogos de futebol no Maracanã, torcendo para o Flamengo, enquanto meu pai, botafoguense, me acompanhava.”
De vez em quando, em meio ao seu trabalho pelo Estado de Israel, as lembranças o acompanham. Ressurgem os momentos em que passava com a família e os amigos em restaurantes, passeios e no clube Monte Sinai, no bairro da Tijuca, onde foi morar aos 6 anos. “Os fins de semana eram uma festa. Um dia ‘normal’ incluía uma visita à praia e, de tarde até a noite, um churrasco com boa música brasileira e muito samba.”
Morador de Israel desde 1980, quando se mudou com a família aos 10 anos, ele construiu sua formação no país até se tornar o atual vice-prefeito de Tel-Aviv, centro econômico e cultural, cargo que ocupa desde 2019. Roberto acumula também a função de secretário de Construção e Tratamento de Espaços Verdes e Lazer, Saúde Pública e Planejamento Sustentável do município. Também é presidente da Associação de Municípios para Gestão de Resíduos da Região de Dan (Grande Tel-Aviv) – Parque de Reciclagem Hiriya.
Para o Rio, volta pelo menos uma vez por ano. Por um lado, para relaxar, em função da rotina intensa da prefeitura. Mas ele aproveita também essas ocasiões para manter a relação institucional com autoridades brasileiras. Em Israel, vive com a mulher, Efrat, e os filhos, Itay (de 17 anos) e Mika (de 15 anos). No dia a dia, acompanha de perto as demandas da prefeitura. Elas aumentaram muito depois dos ataques de 7 de outubro, realizados pelo grupo terrorista Hamas.
Desde então, Tel-Aviv nunca mais foi a mesma. A Oeste, Roberto, em hebraico conhecido como Reuven, fala sobre a guerra, o antissemitismo e seus planos de se candidatar à prefeitura da cidade nas próximas eleições.
Confira.
Como os ataques de 7 de outubro repercutem até hoje em Tel-Aviv?
Tel-Aviv aparentemente voltou ao normal, com restaurantes, bares e cafés abertos. Mas a cidade, conhecida por sua energia inesgotável, ainda não recuperou totalmente a vitalidade e o ritmo de vida intenso e alegre que a caracterizam. Muitos estabelecimentos comerciais na cidade enfrentaram dificuldades e até fecharam as portas devido à queda na receita causada pela situação. O turismo estrangeiro diminuiu, o turismo doméstico também foi afetado, e os moradores consumiram menos opções de entretenimento e gastronomia.
De que maneira a população da cidade também foi afetada?
Muitos jovens de Tel-Aviv se alistaram na reserva do Exército desde o início da guerra, há cerca de dois anos e meio. Eles já cumpriram entre 300 e 400 dias de serviço militar. Seus negócios são os primeiros a serem afetados e também há vários casos de funcionários demitidos por longos períodos de ausência devido ao serviço militar. Na Israel de hoje, existe um grupo de cidadãos que serve no Exército e cumpre serviço na reserva, enquanto comunidades de religiosos ultraortodoxos se recusa a se alistar para o serviço militar regular. Essa situação é insustentável e precisa ser mudada.
O que mudou em sua rotina de gestor desde então, inclusive com a guerra contra o Irã?
Além das questões que nós, como município, enfrentamos regularmente, há muitos outros planos e uma ênfase na preparação da cidade e do município para emergências e guerras. Estamos trabalhando com mais afinco em tudo relacionado a situações de emergência, estabelecendo e regulamentando mais áreas protegidas, abrigos e aprimorando os procedimentos.
Como um carioca ‘da gema’ foi se tornar vice-prefeito de Tel-Aviv?
No ensino médio, já estabelecido em Israel, comecei interessar por política e depois de ser eleito presidente do grêmio estudantil da minha escola eu comecei a ser ativo no Partido Trabalhista e fui presidente da organização juvenil do partido em Tel-Aviv. Aos 20 e poucos anos, tornei-me assessor dos ministros da Economia e da Religião, bem como de vários parlamentares. O assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em 1995, me fez perceber que eu queria trabalhar para o público e promover mudanças.
Naquele momento, você já vivia a rotina em Israel. Mas qual era a sua ligação com o país judaico, quando você morava no Brasil?
Meu pai veio para Israel em 1960 com a Seleção Brasileira de futebol para os Jogos da Macabíada, as Olimpíadas Judaicas realizadas em Israel a cada quatro anos, em que participam equipes esportivas do mundo todo. Depois de terminar a competição, ele ficou em Israel e jogou futebol pelo Hapoel Jerusalém, na primeira divisão do futebol israelense, e também pela seleção do pais.
E o que levou seu pai a se estabelecer em Israel?
Em 1966, ele se casou com minha mãe, que havia emigrado com a família da Romênia alguns anos antes, e eles se conheceram em Jerusalém. Depois da guerra de 1967, meu pai voltou ao Rio de Janeiro e, com ele, minha mãe, que havia deixado seus pais. Depois de 13 anos, embora amasse muito a vida no Rio, ela decidiu voltar para Israel para cuidar dos pais. Ela era filha única. Minha irmã Danieli e eu nos mudamos para Israel com ela. Meu pai permaneceu no Rio por mais três anos, até também vir para Israel.
Você sentiu alguma dificuldade de adaptação?
Não me lembro de muitas das dificuldades que enfrentei quando jovem, no início da minha jornada em Israel. Felizmente, eu tinha uma carta na manga. Eu era bom no futebol, e todos ficavam animados por eu ser brasileiro, então me receberam de braços abertos. Em relação ao idioma, aprendi um pouco de hebraico na escola judaica do Rio. Jovens aprendem um novo idioma rapidamente e, depois de quatro meses em Israel, eu já falava hebraico fluentemente. Claro que a distância do meu pai, da família e dos amigos que ficaram no Rio, e da vida boa e familiar que eu tanto amava, foram as maiores dificuldades.
Leia também: “O estudante e o soldado”, reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 318 da Revista Oeste
Naquela época, o antissemitismo não estava sendo tão disseminado como agora. Como vê o recrudescimento do antissemitismo?
O aumento das manifestações de antissemitismo em todo o mundo, em geral, e contra os judeus é muito preocupante. No cerne da questão está a necessidade de criar um sistema de leis que defina as manifestações de antissemitismo como crime. É muito importante que o público, e especialmente os jovens, sejam tolerantes e aceitem os outros. Ao mesmo tempo, as autoridades policiais de cada país devem responder com severidade a todos os casos de antissemitismo e puni-los da maneira mais rigorosa possível. Não podemos ser complacentes e fazer concessões nesse assunto.
De que maneira a prefeitura de Tel-Aviv atua na luta contra o antissemitismo?
A cidade de Tel-Aviv é a melhor representante do Estado de Israel no mundo. Uma cidade pluralista, liberal, igualitária e aberta, que acolhe a todos, independentemente de religião, raça ou gênero. Nossa abordagem ao antissemitismo concentra-se principalmente no fortalecimento da resiliência e da tolerância da comunidade: a prefeitura promove a coexistência e a integração entre as diversas populações da cidade (como judeus e árabes) e concede auxílios a iniciativas comunitárias para promover o diálogo.
Até que ponto essa iniciativa não fica restrita a Israel?
Cultivamos acordos de amizade e cooperação com grandes cidades ao redor do mundo, promovemos intercâmbios de delegações e fortalecemos os laços com as comunidades judaicas na Diáspora. Em casos de racismo ou discriminação, os moradores da cidade podem entrar em contato com a central de atendimento municipal, que sabe como lidar com a situação.
Como você diferencia o sistema político brasileiro do israelense?
O Brasil é um país enorme. O sistema político é muito diferente. No Brasil, o sistema é presidencialista, e em Israel é parlamentarista. O número de Câmaras de Representantes no Brasil e os cargos políticos são enormes, enquanto em Israel são muito mais limitados. Um político pode ser eleito em Israel para o Parlamento, que tem 120 membros, que também aprova os membros do governo Israelense, ou ser integrado ao governo local – municípios. Em Tel-Aviv, há apenas 31 vereadores na Câmara Municipal. Por exemplo, eu ocupo três cargos simultâneos. Sou vice-prefeito, secretário e membro do conselho municipal.
De que maneira você mantém contato com o Brasil?
Tenho familiares e amigos próximos no Rio com quem mantenho contato constante. Visito a cidade pelo menos uma vez por ano, por algumas semanas. Tenho excelentes relações com a Embaixada do Brasil em Israel e, inclusive, recebi em 2023 a insígnia da ‘Ordem de Rio Branco’. Uma das mais altas honrarias oferecidas pelo governo brasileiro a pessoas ou instituições que se destacam pelas suas contribuições à sociedade e à nação brasileiras.
Houve alguma política em comum da qual você participou?
Recebi a insígnia pelas atividades que promovi entre os dois países, especialmente durante a pandemia de covid-19, quando incentivei a cooperação entre hospitais do Rio e o Hospital Ichilov, em Tel-Aviv. Estou muito bem informado sobre as notícias do Brasil, acompanho a situação política e me mantenho atualizado. Tenho um bom relacionamento com diversos políticos, principalmente com os líderes da prefeitura do Rio.
Como você vê o seu futuro na política israelense?
Em cerca de dois anos e meio, serão realizadas as eleições para prefeito de Tel-Aviv. O atual prefeito, Ron Huldai, completará 30 anos no cargo e não concorrerá à reeleição (no Estado de Israel não há limite de mandatos para políticos). Como uma das pessoas mais experientes e com mais tempo de serviço na política municipal, candidatar-me a prefeito é definitivamente uma possibilidade para mim.
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