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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

STF está 'envolvido em um vasto escândalo', escreve The Economist

A revista britânica publicou uma análise sobre a crise de credibilidade na Corte diante do caso Master

Isabela Jordão

Os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes em sessão plenária do STF (4/2/2026) | Foto: Antonio Augusto/STF

A relação dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o Banco Master já repercute fora do país. “Começou com um banqueiro que gostava de supermodelos e jatos particulares”, inicia o artigo da revista britânica The Economist, publicado nesta terça-feira, 24, que aponta os vínculos do banqueiro Daniel Vorcaro com com “os juízes mais graduados do Brasil”.

Segundo a revista, o tema ganha relevância diante do contexto eleitoral. “Candidatos de direita devem conquistar ampla vitória no Senado nas eleições gerais de outubro” e podem alcançar número suficiente de cadeiras para abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo, diz o artigo.

A direita, diz a The Economist, mantém “especial animosidade” contra a Corte por seu papel na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, sentenciado a 27 anos por suposta tentativa de golpe. A revista avalia que a Corte “tornou-se mais suscetível a críticas” e, por vezes, “tratou questionamentos a seus membros como ataques à própria democracia”.
Toffoli deixa caso Master depois de revelação de negócios com família de Vorcaro — Brasília (DF), 2/2/2026 | Foto: Ascom/STF

O foco recai especialmente sobre o ministro José Antonio Dias Toffoli. Designado por sorteio para relatar o caso Master, ele foi controverso desde o início.

A revista lembra que, ao assumir o processo, viajou em jato particular com um advogado do Banco Master. Depois, reduziu prazos para testemunhas e restringiu o acesso de peritos da Polícia Federal ao material apreendido — decisão que seria revertida. Posteriormente, revelou-se que Vorcaro havia investido em um resort pertencente aos irmãos de Toffoli, empreendimento do qual o próprio ministro participa.

O episódio ganhou novos contornos quando a Polícia Federal, depois de acessar o celular do banqueiro, entregou relatório confidencial ao presidente do STF apontando possível conflito de interesses.
Depoimentos de Daniel Vorcaro à PF revelam sua versão sobre imóveis nos EUA, relações políticas e a crise do Banco Master | Foto: Reprodução/Jornal Grande Bahia

O documento mencionaria ligações telefônicas, reuniões e mensagens sobre transações de 20 milhões de reais destinadas a empresa ligada ao ministro. Toffoli nega irregularidades e afirma que as acusações de parcialidade se baseiam em mera “especulação”, sustentando que os pagamentos foram declarados ao Fisco. Diante da pressão, afastou-se do caso.

Outro nome citado é o do ministro Alexandre de Moraes. Diante de indícios de que sua mulher teria recebido contrato considerado incomum para representar o Banco Master, Moraes determinou investigação contra servidores da Receita Federal por suposto vazamento de dados.

A operação incluiu buscas, uso de tornozeleiras eletrônicas e restrições de viagem.
STF já era questionável antes do Master, avalia The Economist

A revista questiona o uso do “inquérito das fake news”, conduzido por Moraes desde 2019. “Diferentemente de grande parte das atividades da Corte, esse inquérito tramita sob sigilo”, diz o texto. “À época de sua criação, justificou-se a medida pela gravidade das ameaças associadas ao ex-presidente Bolsonaro e seus apoiadores. No entanto, é difícil conciliar o uso do inquérito para investigar servidores fiscais.”
Contrato de R$ 129 milhões com mulher de Moraes e silêncio do casal sobre o caso são apontados como golpe na reputação do Supremo | Foto: Shuttterstock

O texto recorda episódios anteriores em que o alcance do inquérito foi ampliado, como em 2019, quando Moraes o utilizou para encerrar investigação da Receita Federal sobre diversas autoridades, inclusive ministros do STF. No mesmo ano, Moraes determinou a retirada de uma reportagem da revista Crusoé sobre ligações entre Toffoli e o então presidente da Odebrecht.

“Posteriormente, Toffoli anulou todas as multas aplicadas à Odebrecht, apesar de executivos da empresa terem admitido a existência de um departamento dedicado ao pagamento de propinas a políticos, no valor de US$ 800 milhões”, frisou a revista.

“A interação entre empresários e o Supremo é frequente”, prossegue o artigo. A The Economista citou o evento anual promovido por Gilmar Mendes em Lisboa — apelidado de “Gilmarpalooza” — que reúne políticos, magistrados e empresários, alguns com processos no STF. A universidade ligada ao ministro teria recebido recursos da J&F, holding controladora da JBS.
Reportagem censurada por Moraes | Foto: Reprodução/Crusoé

O artigo destaca também a recorrência do nepotismo. A revista cita dados do jornal O Estado de S. Paulo, segundo os quais há 1.860 processos no STF ou no Superior Tribunal de Justiça em que parentes próximos de ministros do Supremo atuam como advogados principais. Em 70% dos casos, a atuação começou depois da nomeação do familiar à Corte.

“A mulher de Moraes, que dirige um escritório de advocacia com o casal de filhos, ilustra essa dinâmica”, diz a The Economist. Antes de Moraes ser nomeado ao STF, em 2017, o escritório tinha 27 processos no STF e no STJ.

Diante do desgaste, o novo presidente do STF, Edson Fachin, propôs a adoção de um código de ética, com participação da ministra Cármen Lúcia na elaboração. A ideia é estabelecer diretrizes sobre conflitos de interesse, transparência financeira e conduta pública. Ainda assim, Toffoli e Moraes consideram a medida desnecessária.

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