Investigação do MPSP revelou que esquema do crime organizado movimentou R$ 6 bilhões
Rachel Díaz

Empresários foram forçados a vender negócios para o PCC | Foto: Reprodução/Twitter/X
Empresários do setor de combustíveis em São Paulo relataram ter sido alvo de uma rede criminosa que forçava a venda de negócios como parte de um esquema de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Os relatos, revelados em investigações recentes, expõem ameaças, fraudes contratuais e intimidação violenta, segundo as vítimas, cujos nomes permanecem preservados para garantir a segurança.
Segundo uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, o proprietário de um posto narrou que, depois de aceitar proposta de venda por necessidade financeira, percebeu que os compradores estavam ligados ao crime organizado. Quando tentou romper o acordo, passou a receber ameaças de morte.
“Ele começou a falar: ‘É, tem pai matando o filho por causa de dinheiro”, disse a vítima. “Tem filho matando o pai por causa de dinheiro. Se mata muito fácil por causa de dinheiro.’”
O Ministério Público de São Paulo relata que, depois da venda, a organização criminosa continuava usando os estabelecimentos em nome dos antigos donos, comercializando combustíveis adulterados e deixando-os expostos a processos legais.
“Elas eram vítimas até duas vezes. Primeiro, porque não recebiam e depois num segundo momento porque passavam a responder inclusive pelos crimes praticados pela organização criminosa”, explicou o promotor de Justiça Sílvio Loubeh.
Acusados negam envolvimento
Outro empresário, que vendeu seu posto em 2018, afirmou ter sido coagido com a frase: “Você vai vender o posto por bem ou por mal”. Ele denunciou ainda a falsificação de sua assinatura em contratos e afirmou que segue negociando com bancos para quitar dívidas adquiridas pela quadrilha.
Em depoimento, reconheceu Alexandre Leal como o comprador inicial e relatou que o negócio foi repassado a Wilson Pereira Júnior, conhecido como Wilsinho, apontado pelo Ministério Público como sócio de Flávio Silvério Siqueira, principal beneficiário do esquema.
A defesa de Flávio Silvério Siqueira afirmou que ele “não tem contato com ninguém do PCC” e ressaltou: “O PCC mexe com crime e não com motéis ou qualquer outra empresa”.
Já o advogado de Wilson Pereira Júnior declarou que seu cliente “não foi formalmente citado no processo” e que “qualquer esclarecimento será prestado às autoridades”. A reportagem do Fantástico não conseguiu contato com a defesa de Alexandre Leal.
Esquema do PCC movimentou R$ 6 bilhões
PCC é umas das principais facções criminosas do país | Foto: Reprodução/Agência BrasilÀ medida que as investigações avançam, as vítimas tentam reconstruir a vida em meio a perdas emocionais e financeiras. “Perdi meu ganha-pão. E aí, a gente fica desesperado”, relatou uma delas. Outra disse: “Eu sabia que ia dançar financeiramente, que não ia ter mais vida para nada. Mas pelo menos eu toco minha vida”.
O trabalho conjunto entre Ministério Público e Receita Federal expôs um sofisticado esquema societário e financeiro criado para ocultar atividades ilícitas do PCC. De acordo com os levantamentos, a quadrilha controlava centenas de empresas de fachada, entre elas 267 postos de combustíveis e 60 motéis em São Paulo.
Entre 2021 e 2025, as firmas ligadas ao grupo movimentaram cerca de R$ 6 bilhões. Investigadores revelam que os motéis foram usados por dificultarem o rastreamento de clientes, o que facilitava a lavagem de dinheiro. O esquema também envolvia fintechs para centralizar os recursos, tendo a BK Bank como principal intermediária — responsável por receber transferências milionárias dos estabelecimentos.
A defesa da BK Bank afirma que a instituição é regulada e autorizada pelo Banco Central, negando envolvimento com os investigados. Depois de passar pelas fintechs, o dinheiro era convertido em bens de luxo para integrantes da quadrilha.a
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