asta demorou para acionar centro que integra todas as forças de segurança pública, proteção e defesa civil
RUTE MORAES
Foto: Agência Brasil | Foto: Foto: Agência BrasilPor volta das 9 horas da manhã de 8 de janeiro, o então chefe do setor de operações integradas (Seopi) do Ministério da Justiça, Mauro André Kaiser Cabral, trocava mensagens com o então diretor-adjunto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Saulo de Moura Cunha, sobre o risco de invasões a prédios públicos em Brasília.
Conversas obtidas por Oeste mostram que, inicialmente, Saulo perguntou a Cabral se o Ministério da Justiça iria acionar o Centro Integrado de Comando e Controle Nacional (CICCN). Depois, o então diretor da Abin encaminhou dois avisos a Cabral, informando que a manifestação denominada de “tomada de poder” marchava em direção à Esplanada dos Ministérios.
Além disso, que, nas horas anteriores, houve um aumento significativo nos números de ônibus que chegaram à capital federal. O número estimado de pessoas já era de 3 mil.
Em seguida, o então chefe da Seopi respondeu que a avaliação da inteligência do ministério é que não haveria a necessidade de acionar o centro integrado. Contudo, que aguardaria orientações do novo secretário Nacional de Segurança Pública, Tadeu Alencar.
“Bom dia! No momento, a avaliação da intel [Inteligência] do MJ-SP é que a maior tensão é no DF [Distrito Federal], e, por isso, não haveria necessidade de ativar o CICCN. Escalei a decisão para o novo Secretário Nacional de Segurança. Estou aguardando orientações”, escreveu Cabral.
Às 10h30, Saulo encaminhou outro aviso ao subordinado do Ministério da Justiça. A informação é que a chegada dos manifestantes no quartel-general diminuiu, mas que houve “incremento significativo no número de barracas” e que permaneciam as “convocações e incitações para deslocamento até a Esplanada dos Ministérios, ocupações de prédios públicos e ações violentas”. A marcha até a Esplanada também estava mantida.
Cabral responde Saulo reiterando que o CICCN não seria ativada no momento. “Funcionando apenas com o plantão”, explicou Cabral. Duas horas depois, o chefe da Seopi encaminhou um comunicado a Saulo. O informe tratava da chegada de 3,8 mil pessoas em Brasília, da marcha até a Esplanada e de uma possível tomada de poder.
Às 13h32, Cabral comunica Saulo que os manifestantes já estavam saindo do quartel para a Esplanada. Até as 15 horas, o chefe da Seop enviou vídeos e fotos para o chefe da Abin. Às 15h18, ele escreve a seguinte mensagem: “Informações que manifestantes entraram no Congresso em quantidade considerável“.
Até as 15h44, Cabral passa a narrar os acontecimentos que se desenrolam na Praça dos Três Poderes. As informações se referem a manifestantes tentando acessar o Supremo Tribunal Federal, outro que teria sido atingido por uma arma de fogo e outros que quebraram vidros e invadiram o Salão Branco do STF.
Apenas às 15h49, o chefe da Seopi aciona o CICCN. “Estou acionando a Célula de Inteligência do CICCN”, escreveu. O CICCN é um centro que integra todas as forças de segurança pública, proteção e defesa civil.
A ideia é que as forças de segurança trabalhem unidas, atuando nas esferas de atribuições. Conforme as mensagens trocadas entre o então chefe da Seopi e Saulo, o CICCN estava sob o guarda-chuva do Ministério da Justiça — que, diante de todos os avisos, decidiu ativar o centro quase 16 horas da tarde.
De acordo as conversas, a ação do CICCN surtiu efeito às 18 horas, quando o secretário da Polícia Militar do Rio de Janeiro colocou seus agentes à disposição do centro. No entanto, os prédios públicos já haviam sido invadidos, vandalizados e, com muito custo, desocupados.
A Seopi também estava no grupo do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), onde outras forças de segurança do governo federal e do governo do Distrito Federal foram comunicadas desde 6 de janeiro sobre o risco iminente de invasões.
Chefe da Seopi era do MJ desde a gestão Bolsonaro
Senador Esperidião Amin (PP-SC) comentou mensagens entre integrante do MJ | Foto: Roque de Sá/Agência SenadoCabral era lotado do Ministério da Justiça desde a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Com o governo Lula, efoi mantido na pasta. O senador Esperidião Amin (PP-SC) mencionou a troca de mensagens na sessão desta quinta-feira, 24, da CPMI do 8 de Janeiro.
“Eles [Ministério da Justiça] chegaram atrasados, mas tinham informação”, disse o senador. “Apenas depois da invasão o comando foi acionado. Temos de confrontar a ação do 8 de janeiro com a omissão do 8 de janeiro.” Procurado por Oeste, o Ministério da Justiça não retornou até a publicação desta reportagem.
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