RADIO WEB JUAZEIRO : Jornalista que fez reportagem sobre Dino relata intimidação da PF



sexta-feira, 13 de março de 2026

Jornalista que fez reportagem sobre Dino relata intimidação da PF

Alexandre de Moraes autorizou busca contra Luís Pablo Conceição Almeida, que escreveu sobre o uso de veículos oficial por familiares do ministro

Isabela Jordão

Reportagens do jornalista investigavam o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão | Foto: Luiz Silveira/STF

O jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida afirmou, nesta quinta-feira, 12, ter se sentido intimidado e com suas prerrogativas profissionais violadas ao ser alvo de uma operação da Polícia Federal (PF). De acordo com a PF, o jornalista teria publicado reportagens com informações que, em tese, poderiam caracterizar o crime de stalking.

Por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, agentes da PF cumpriram, na última terça-feira, 10, um mandado de busca e apreensão contra o jornalista. A medida integra uma investigação que apura um suposto crime de perseguição contra o ministro Flávio Dino.

O processo tramita sob segredo de Justiça. Em entrevista ao portal SBT News, Conceição Almeida relatou ter sido surpreendido pela operação nas primeiras horas da manhã. Os mandados foram executados na casa do jornalista, responsável pelo Blog do Luís Pablo. Durante a ação, foram apreendidos celulares, um computador e um HD externo.

Alexandre de Moraes autorizou busca da PF contra o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida | Foto: Reprodução/SBT News

“Às 6 horas da manhã da terça-feira fui surpreendido por agentes federais na minha casa”, afirmou. “Fizeram busca e apreensão por determinação do ministro Alexandre de Moraes por causa de duas publicações que fiz sobre o uso de um veículo do Tribunal de Justiça por familiares do ministro Flávio Dino.”

Na decisão, que também está sob sigilo e foi obtida pelo SBT News, Moraes afirma que a PF identificou indícios de que o jornalista seria suspeito de perseguição e teria utilizado “algum mecanismo estatal para a identificação e caracterização dos veículos empregados”, o que teria provocado a exposição indevida de informações relacionadas à segurança de autoridades.

As reportagens, diz o jornalista, investigavam o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão. O tribunal dispõe de quatro veículos blindados destinados a autoridades, incluindo um para missões oficiais. De acordo com ele, um desses carros estaria à disposição de Dino e vinha sendo utilizado de forma privada por sua mulher.
Sede do Tribunal de Justiça do Maranhão: alvo de investigação | Foto: Divulgação/TJMA

Conceição Almeida afirmou ainda que sua reportagem revelou um documento segundo o qual o STF teria solicitado apenas apoio policial ao ministro quando ele estivesse no Maranhão, e não a cessão de um veículo. Depois da publicação, segundo o jornalista, o tribunal teria formalizado um pedido para manter o uso do carro.

Ele afirma que a reportagem teve origem em uma denúncia recebida pela redação. O jornalista disse que investigou a informação e procurou tanto o STF quanto o Tribunal de Justiça do Maranhão em busca de posicionamento, mas não obteve resposta antes da publicação.

“Recebi a denúncia, apurei, confirmei a veracidade e publiquei”, declarou. “Estão me acusando de perseguição como se eu estivesse monitorando o ministro e sua família. Jamais fiz isso. Apenas exerci jornalismo investigativo.”
Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF (4/3/2026) | Foto: Luiz Silveira/STF
Apuração e origem das informações sobre Flávio Dino

Luís Pablo Conceição Almeida disse que recebeu um vídeo em que a mulher de Dino aparece dentro do veículo oficial acompanhada do filho do casal. Por envolver uma criança, ele afirma que decidiu não divulgar o conteúdo integral.

“Eu apenas congelei uma imagem mostrando o carro saindo do local”, relatou. “Fiz a checagem da placa e segui com a apuração jornalística com minhas fontes.”

O jornalista também declarou acreditar que a operação teve como objetivo identificar a fonte da denúncia. Ele relatou ainda prejuízos profissionais em decorrência da apreensão de seus equipamentos.

“Levaram minhas ferramentas de trabalho. Meu blog é atualizado diariamente e estou há dois dias sem escrever porque levaram meu computador e meu celular”, afirmou.
Imprensa acompanha operação da Polícia Federal na sede da superintendência em São Paulo | Foto: Tauany Cattan/Revista Oeste
Repercussão entre entidades

A Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão, por meio da Comissão de Defesa da Liberdade de Expressão e de Imprensa, manifestou preocupação com a operação e destacou a importância de garantir as proteções constitucionais à liberdade de imprensa e ao sigilo da fonte.

Segundo a entidade, medidas de busca e apreensão contra profissionais de comunicação devem ser adotadas com cautela e dentro de limites rigorosos, de modo a preservar o livre exercício da atividade jornalística.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo também criticou a decisão. Em nota, a entidade afirmou que a medida “coloca não apenas o repórter sob risco, mas todos os jornalistas brasileiros”, além de poder estabelecer um precedente preocupante para o exercício da profissão.
Fachada da sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) | Foto: Reprodução/Internet

Para a associação, ações invasivas contra jornalistas precisam ser excepcionais e devidamente justificadas, sobretudo quando envolvem a apreensão de equipamentos que podem comprometer o sigilo da fonte.
Posicionamento do STF

Em nota ao SBT News, o Supremo Tribunal Federal informou que a segurança institucional de Flávio Dino foi alertada em 2025 sobre um suposto monitoramento ilegal de seus deslocamentos em São Luís.

Segundo o tribunal, houve divulgação de placas de veículos utilizados pelo ministro, quantidade de agentes e nomes de integrantes da equipe de segurança, além de outros dados considerados sensíveis.
Sessão Solene de Abertura do Ano Judiciário de 2026, no STF, em Brasília, DF (2/2/2026) | Foto: Gustavo Moreno/STF

De acordo com o STF, o material foi encaminhado à PF e à Procuradoria-Geral da República, o que levou à abertura do procedimento investigativo.

O tribunal acrescentou que a investigação busca esclarecer possíveis monitoramentos ilegais e ressaltou que o caso não tem relação com crimes contra a honra, com a liberdade de expressão ou com o chamado inquérito das fake news.

O STF também informou que o uso de veículos de segurança segue regras estabelecidas pela Lei nº 12.694/2012, pela Resolução nº 721 do STF e pela Resolução nº 435 do Conselho Nacional de Justiça, que tratam da cooperação entre órgãos de segurança institucional do Judiciário.

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